Tour de Frantz
Nicolás Frantz, luxemburguês de Mamer, dominou a tal ponto o Tour de France de 1927 e 1928 que estes chegaram a ser chamados de “Tour de Frantz”. Antes que ele, outros demonstraram supremacia, mas nunca, segundo os cronistas, o fizeram com tanta elegância, classe e desenvoltura. Pensem que em 1928 vestiu o maillot jaune no primeiro dia em Caen e o manteve por 22 etapas, até Paris, onde se deu ao luxo de ganhar na pista do Parque dos Princípes. Filho de granjeiro que pretendia seguir o exemplo do pai e não ciclista, tinha sempre pronta uma frase típica de seu país: Immer mit der ruhe (sempre com calma).
Uma calma ao redor da qual compunha sua imagem e praticava tanto na vida como no ciclismo. Tinha muita presença e cuidava muito da sua aparência, o que não era nada comum na Europa pós-guerra. Esse cuidado vinha desde o início da sua carreira, onde não se encontrava o que comprar e tinha que competir com o que encontrava ou lhe emprestavam (também em virtude da resistência de sua família para que praticasse o ciclismo). Foi por isso que na sua primeira prova oficial vestiu uma camiseta de futebol, emprestada por um ex-prisioneiro de guerra francês residindo em Luxemburgo (um veterano jogador internacional que Frantz sempre lamentou ter esquecido o nome).

Mas era sobre a bicicleta onde sua elegância ficava mais clara. Sua posição sobre a máquina era perfeita para a época. Tinha uma pedalada ligeira, quase aérea, que causava uma falsa sensação de ser produzida sem esforço. Uma facilidade aparente que ao princípio provocava antipatia entre aqueles que não lhe conheciam suficientemente. Acreditavam que ele era pretensioso, quando não era o caso. Sem dúvida, seus êxitos e seu comportamente com seus adversários e o público lhe fizeram justiça.
Desde sua aparição no Tour de 1924 destacou-se como um vencedor potencial para a Grand Boucle. Suas qualidade como rodador e sprinter, somada às de escalador, uma faceta imprescindível para aquele que quiser ganhar a mais charmosa das provas ciclistas. Ganhador de duas etapas de alta montanha, Briançon-Gex e Gex-Estrassburgo, deixou claro que era o único capaz de bater a supremacia de Ottavio Bottechia, a caminho de ser o primeiro italiano a ganhar o Tour. Mas o duelo esperado pelo público não teve vez: muitos disseram que ele não era feito para as provas por etapas e que poderia mostrar melhor seu talento nas clássicas. A verdade era outra e Nicolás mostrou isso em 1929.
A direção da prova imaginou que ele não teria personalidade, imagem pública para ser um campeão aceitável em 1924. Então pediu-lhe para que acalmasse seus ardores. Como negou-se, seu patrão, o legendário Baugé, fez-lhe compreender que se não cedesse não teria equipe para o ano seguinte: nem com ele, nem com ninguém.
Essa história ele confirmou dois anos antes de sua morte, aos 86 anos, dizendo inclusive “O pior é que se tivesse ganhado aquele Tour, é certo que não teria corrido em 1925″. Temos que lembrar o poder que tinham as marcas e os organizadores: em 1937, Lapébie ganhou a prova, mas não participou em 1938 porquê sua presença não agradava ao diretor do L’Auto.
Assim, Nicolás precisou de um ano mais para formar seu caráter e a medida de suas possibilidades. “Assim, em 1925, Ottavio ganhou a regularidade e eu venci quatro etapas, o que me fez muito popular. Em 1926 ganhei outras quatro e terminei, de novo, segundo, atrás de Lucyen Buysse. Dali em diante, ninguém poderia impedir-me de ganhar o Tour”.
E o fez com incrível superioridade, que já falamos. Deixou o ciclismo aos 35 anos, mas sem vencer a Paris-Bruxelas e a Paris-Tours, mas melhorando o número de vitórias no Tour (20 vezes) que ostentava até então seu compatriota François Feber.
Mas não foi esse recorde que lhe deu mais satisfação, mas sim seus DOZE maillots de Campeão Nacional de Luxemburgo.
By Paco Jiménez

Escrito por Zaka