Ciclistas africanos, sairá de lá um novo Pantani?

12/fevereiro/2009

Em agosto de 2008 dois quenianos, residentes em Eldorat, Zakayo Nderi, engraxate e Samwei Mwanga, bici-taxista, ambos com 26 anos, iniciaram uma aventura impossível para a maioria dos humanos: tentar bater o recorde da ascenção ao Alpe d’Huez (Marco Pantani, 1994 com 36 minutos e 50 segundos).

Nicholas Leong, francês, selecionou os melhores ciclistas dessa aldeia, berço de alguns ganhadores de maratona e os levou a treinar na Singapura e na Malásia durante dois meses. Durante esse período, Zakayo chegou a vencer uma maratona vertical subindo as escadas de um dos edifícios mais altos da cidade.

Eles tiveram que aprender a usar a nova tecnologia, pois nunca haviam pedalado uma bicicleta com marchas, prato duplo, pedais clip e outras coisinhas. Ao final do treino, Zakayo e Nderi foram a França onde ficaram por 20 dias para tentar bater o recorde.

Como imaginava-se, não conseguiram bater o recorde do Pirata. Mas foi espetacular. Depois de alguns dias de condicionamento e a participação em corridas semiprofissionais, Zakayo conseguiu a escalada em 42 minutos e 10 segundos vencendo a prova. Seu companheiro Mwanga ficou em terceiro.

Considerando esse tempo e voltando um pouco no passado, mais precisamente em 21 de julho de 2004, 16a. Etapa do Tour de France, cronoescalada ao Alpe d’Huez podemos constatar que Zakayo ficaria muito bem colocado:

1 Lance Armstrong, 39:41
2 Jan Ullrich, 40:42
3 Andreas Klöden, 41:22
4 José Azevedo, 41:26
5 Santos Gonzalez, 41:52
6 Giuseppe Guerini, 41:52
7 Vladimir Karpets, 41:56
8 Ivan Basso, 42:04
9 David Mocoutié, 42:04
10 Carlos Sastre, 42:08
11 Zakayo Nderi, 42:10

Vejamos quem pode ser considerado bom (ou razoável) escalador e ficaria atrás do amador:

- Oscar Pereiro, 42:47
- Floyd Lândia, 43:16
- Gilberto Simoni, 43:20
- Paco Mancebo, 43:21
- Levi Leipheimer, 43:47
- Richard Virenque, 44:11
- Santiago Botero, 44:27
- Michael Rasmussen, 44:49

Pelas minhas contas, mais da metade desses colocaram (ou foram acusados de) aditivo no combustível. Então, a proeza de Zakayo é ainda maior.

Mas a questão que gerou controvérsia (não esqueçam que esse teste foi realizado na EUROPA, continente “branco”): seriam os africanos mais aptos para o esporte, a exemplo das provas de longa distância?

Eu contesto e não concordo com argumentos de que raça “X” é mais apta para um esporte do que a raça “Y”. Na espécie humana não existem diferenças entre grupos que permitam falar de raças, embora popularmente fale-se muito disso. Existe aquele estudo que menciona que a raça “X” tem fibras musculares mais curtas e rápidas e a raça “Y” fibras longas e lentas. Mas qual a explicação para as exceções?

Não há mais diferenças entre brancos, negros, amarelos, vermelhos ou verdes do que entre brasileiros e mexicanos, ou espanhóis e dinamarqueses.

Parece-me que há mais diferenças genéticas entre Pantani e Cipollini do que entre duas pessoas de diferentes “cores” escolhidas aleatoriamente.

Claro, há aqueles que defendem a teoria das “raças” diferentes alegando que o basquete norteamericano é dominado por negros. Na minha opinião, isso ocorre pois esse é o esporte que se pode praticar gratuitamente: em todas as cidades existem quadras públicas.

É o mesmo que acontece na Croácia, onde existe uma quantidade enorme de piscinas gratuitas. O resultado é que os croatas são ótimos no pólo aquático. Já os africanos são péssimos: muitos deles nunca sequer viram uma piscina na frente.

Será que os chineses são mais ágeis que o resto dos humanos e por isso jogam tênis de mesa tão bem? Ou é resultado da política esportiva do governo chinês?

E o que dizer do Brasil? Qual o motivo de tantos jogadores bons de futebol? Em qualquer lugar existe um campinho de terra para bater uma bolinha. Qualquer time de várzea faz doações de bolas velhas para os meninos do bairro. Se uma bola custasse 1.000 reais e o aluguel do campo 200 reais a hora, os meninos encontrariam outro esporte para praticar, não parece óbvio?

Esse é o meu ponto de vista. A tradição, as diferenças sociais e econômicas influenciam a escolha do esporte muito mais do que as “raciais”. Além disso, conhecendo as estradas brasileiras, posso imaginar como são as africanas, se é que elas existem. Assim, o ciclismo desenvolve-se na África conforme o número de estradas e a quantidade do vil metal disponível no bolso.

Agora divirtam-se com o vídeo da escalada.

 


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.