Il Pirata, Tour de France 1997

14/março/2009

marco

Após a retirada de Induráin, a edição do Tour em 1997 se mostrava basicamente como um duelo Telekom-Festina e mais um intruso: Abraham Olano. Do lado da gigante alemã destacava-se o veterano Bjarne Riijs, vencedor da edição anterior e o jovem Jan Ullrich, que havia assombrado o mundo com seu segundo lugar, também em 1996. Do lado do relógio francês, aparecia o escalador Richard Virenque, escoltado pelo suíço Laurent Dufaux e Cristophe Moreau.

Os espanhóis tinham esperança em Abraham Olano, da Banesto, que contava ainda com Chava Jimenez, Manolo Beltrán, Santiago Blanco e Ángel Casero. A ONCE tinha uma potente equipe com Alex Zulle e Jalabert. Outros destaques eram a Saeco de Casagrande e Gotti. A Cofidis tinha Rominger (era a equipe que deveria ser liderada por um tal Lance Armstrong, cuja carreira estava arruinada por um câncer). A MG Technogym tinha o ganhador da Liège-Bastogne-Liège daquele ano, Michele Bartola. A Polti tinha Luc Leblanc, a Rabobank o veterano Eric Breukink e Peter Luttemberger e Michael Boogerd e a Batik com Evgeni Berzin.

A discreta Mercatone Uno contava com aquele italiano que havia causado tanto furor três anos antes.

Para Marco Pantani, aquele Tour era a volta a competição após uma sequência de lesões e quedas que ameaçavam sua carreira. Vamos recordar esses fatos.

Pantani havia feito uma apresentação formidável na temporada de 1994, cheia de momentos incríveis que estavam gravados na mente dos fãs. Sem dúvida, um dos destaques foi a etapa de Merano-Aprica do Giro’94. Seu terceiro lugar no Tour (seu primeiro) foi motivo de alvoroço. Nunca haviam visto ninguém escalar como ele.

As expectativas geradas em 1994 pelo jovem corredor calvo da Carrera começaram a truncar na temporada seguinte. Não largou no Giro em consequência de um acidente. Pode recuperar-se para o Tour, onde voltou a mostrar sua classe de escalador, mas sem grandes opções na geral naquele que foi o mais brilhante Tour de Miguel Induráin (e também o último). Foi vencedor em Alpe d’Huez e Guzet Neige. No Mundial, ficou com o bronze atrás dos espanhóis. Mas o drama estava apenas começando: dias depois, em 18 de outubro, disputando a Milan-Turin uma semi-clássica italiana. Nesse dia Pantani é atropelado junto com dois outros corredores por um veículo que entrou por engano no percurso da prova e circulava no sentido contrário na descida de Pino Torinese.

Pantani é operado de fraturas na tíbia e perônio, lesões gravíssimas para um ciclista. Ficou sem pedalar por meses. Em janeiro de 1996 anunciou seu regresso para o mês de março depois que lhe tiraram os metais da perna. Mas não voltou antes de 3 de agosto, no Criterium de Cepagati. Seus fãs choram sua ausência no Giro vencido por Tonkov.

No final da temporada desaparece a Carrera e surge a empresa que o apoiou desde o início e nunca o abandonou (até hoje, o Memorial Marco Pantani é patrocinado por esta empresa): Mercatone Uno. Na sua nova equipe, Pantani olha para o seu retorno na temporada de 1997. Vai deixando de ser o Elefantino e começa a ser Il Pirata, com a cabeça completamente raspada.

Todos tem grandes ilusões no Giro’97. Está com os melhores no primeiro final em subida, mas o azar aparece novamente: Pantani abandona a prova, vítima de uma queda ao atropelar um gato (não sei se era preto). Mas as lesões não são tão graves e ele apresenta-se para o Tour.

Nos Pirineus, Pantani confirma sua classe e está com os melhores na montanha. Mas isso não basta para o Pirata e para fazer honra a sua lenda necessitava a ser o melhor escalador. Chegamos a 19 de julho, na 13a. Etapa, Saint Étienne-Alpe d’Huez. Uma etapa com 203Km e uma só dificuldade montanhosa, o próprio Alpe d’Huez.

Antes da montanha mítica, uma escalada de 3a. Categoria, Grand Bois, vencida por Richard Virenque. No pé do Huez, Festina e Telekom aceleram. Rapidamente cedem para a lenda Pantani. O Pirata assume a cabeça da corrida e não a abandona mais. Seu ataque é considerado maravilhoso, um dos mais espetaculares de sua carreira. Nada de pequenas acelerações. Pantani levantou a cabeça e acelerou. “Que me siga quem puder”, disse Marco Pantani aos seus rivais.

Naquele dia, Pantani subiu os 13,8Km do Alpe d’Huez em 37 minutos e 35 segundos, o melhor tempo até hoje.

Ilude-se quem acha que para ele escalar era fácil. Basta olhar para o seu rosto de sofrimento, não escondia a dor, mas nunca se rendia. Uma vez lhe perguntaram a respeito disso e sua resposta foi:

“Claro que sofro em cima da bicicleta, por isso vou mais rápido do que posso para chegar antes na meta e descansar”.

Link para download da escalada ao Alpe d’Huez (437Mb)

Vou me abster de comentar a respeito dos seus positivos, sua altíssima taxa de hematócritos e o seu triste fim como usuário de drogas. Às vezes é bom lembrar só das coisas boas. Também por isso não vou fazer comentários sobre o quarteto da foto….


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