Minha Eroica

10/março/2009

luisRelato do corredor espanhol Luis Ángel Maté (Diquigiovanni – Androni Giocattoli) para o ciclismoafondo.

“No hotel em Benalmádena, após terminada a Vuelta a Andalucia, Marco Bellini, meu diretor esportivo disse que me preparasse bem nos próximos dias, para que em 7 de março estivesse na Toscana para correr a Eroica. Nesse momento não poderia imaginar onde ia. Alguns dias antes, treinando com Davide Rebellin em Coín, encontramos umas obras na estrada que nos fizeram desviar uns dois quilômetros por uma estrada de terra. Davide disse: “Veja, isso é como a Eroica”.

Mas o certo é que não me dei conta de onde estava me metendo até não chegar a Itália. Nos dias anteriores todos só falavam da Eroica. Nos jornais e nos comentários das pessoas era possível notar a importância dessa prova. No dia anterior a corrida, como é habitual, depois de uma viagem desde Cossato até Siena, saí para rodar alguns quilômetros com os companheiros. Com trinta minutos encontramos uma placa de indicação que orientava para um desvio de terra. Não era um erro não, era o primeiro trecho da Eroica! Depois, no hotel, os companheiros contavam algumas piadas, como quando um rebanho de cabras avançou contra o pelotão.

Pela manhã nos acomodamos no ônibus para ir até a saída. Em Chianti já se respirava um ambiente especial. Comecei forte, como sempre buscando a fuga. Com a aproximação do primeiro trecho de terra, 10 quilômetros antes, já se ia a 100%. Uma tensão impressionante, não se podia passar por nenhum lado, guidão com guidão, a mil por hora. Eu olhava o odômetro e não conseguia imaginar que só havíamos rodado 20 quilômetros e que íamos tão rápido.

A entrada do trecho de terra foi impressionante. Todos enfileirados, uma nuvem de poeira que não deixava ver mais longe do que a roda do ciclista da sua frente e, sobretudo, o ruído das bicicletas rodando pelo cascalho que é ensurdecedor. Ali os auriculares não servem para nada. Olhava adiante e só conseguia ver a roda do ciclista na minha frente. Concentrei-me só em não passar com a roda em alguma pedra que pudesse rasgar o pneu. Uma das sensações mais prazeirosas que senti desde que ando de bicicleta é sair para o asfalto após um trecho de terra da Eroica.

No segundo trecho de terra, apesar dos tubulares especiais, primeiro furo. Tenho que trocar de roda, esperar que chegue o carro, e, o que é pior, reintegrar-me ao pelotão ante a fila de carros e a nuvem de poeira. Posso assegurar que passei a maior parte da prova tentando passar para as posições mais adiantadas do grupo. Não havia maneira, é impressionante a luta que há para estar na frente.

Os últimos trechos eram os piores. Depois de estar tentando tirar as diferenças nas partes asfaltadas gastei muitas forças e foi impossível estar na frente nos últimos trechos, que além de sem asfalto, tem desníveis brutais. No quinto trecho, uma das partes era estreita e houve uma queda e grande parte dos corredores ficaram isolados dos grupos mais adiantados. Era um espetáculo ver no meio do pelotão os corredores tentando passar por onde fosse possível. E finalmente, a chegada em Siena foi apoteótica. Um final de sonho terminando na Piaza del Campo, cheia de turistas e fãs, algo que me arrepia só de pensar.

Sinceramente a Eroica me marcou. É a prova mais bonita que já corri, um autêntico espetáculo. Uma prova que pode fazer história. Não sei como são as grandes clássicas como Flandes ou a Liège, mas digo que a Eroica tem todos os ingredientes para fazer história.

Pessoalmente, gostaria de voltar no ano que vem, com mais experiência e sabendo o que posso encontrar, mas também gostaria que corredores como Juan Antonio Flecha se apresentasse, pois estou certo que poderia ser um grande protagonista desta prova. A propósito, hoje, após uns quantos banhos ainda sai terra dos meus ouvidos e olhos. A Eroica marca.”


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