Canibal, o legítimo
23/Setembro/2009Coppi x Merckx
03/Setembro/2009Dificilmente alguém além de Bernard Hinault ou Lance Armstrong contestam a teoria de que os dois melhores ciclistas de todos os tempos foram Fausto Coppi e Eddy Merckx.
Mas entre os dois, qual foi melhor? O primeiro correu entre os anos 40 e princípio dos 50. O segundo entre final dos anos 60 e início dos 70.
Para um corredor deixar de ser apenas um “campeão” e passar a ser um “grande campeão” necessita de rivais que tornem difíceis as coisas para ele. Se pensarmos assim, Indurain passa a ser apenas um “campeão”, como Hinault ou Armstrong.
Mas Il Campionissimo e o Canibal tiveram ao seu lado um verdadeiro exército de qualidade, obstinados a vencê-los.
Geração Coppi
Coppi foi um homem que rompeu barreiras e sempre com situações pessoais delicadas (entre elas o episódio da Dama Bianca). Conhecido como o escalador com mais classe de todos os tempos, isso escondeu um pouco as suas outras grandes qualidades: um ótimo rodador e um ótimo contrarrelogista.
Nenhum homem, exceto Merckx antes do seu acidente foi capaz de abrir tantas diferenças com relação aos seus rivais.
Seu rival mais direto foi Gino Bartali. Contrastava com Coppi por ser um corredor do interior e muito religioso. Não era tão completo quanto Coppi, mas escalando estava praticamente ao mesmo nível.
O suíço da K era Ferdi Kübler, melhor rodador e mais regular que seu compatriota Koblet. O homem do nariz pontudo tem um Tour e um Mundial no seu currículo, assim como grandes clássicas (Liège, Fleche Wallone…)
O outro “K” era Hugo Koblet, le pedaleur de charme. Foi ele que arrasou em 1951, tanto no Tour quanto no GP das Nações, vencendo a Coppi. O homem que se penteava antes das chegadas foi três vezes pódio no Giro.
Um verdadeiro gênio que apareceu na fase final da carreira de Fausto foi Louison Bobet (Louison em francês é diminutivo, era o Luisinho), o primeiro capaz de impor-se três vezes consecutivas no Tour. Era um polivalente, venceu em provas tão diferentes com o Campeonato do Mundo, Tour de Flanders, Milan-San Remo, Giro di Lombardia e Paris-Roubaix.
Esse foi um ídolo de Merckx: Stan Ockers. Bastante completo, bom rodador (várias medalhas em Mundiais, regularidade no Tour e clássicas como Liège e Fleche Wallone). Participou duas vezes no Giro, sendo 2º. e 6º. Em 8 participações no Tour (sua pior classificação foi uma 8ª. posição na sua estréia).
Fioranzo Magni, um dos campeões esquecidos. Um dos melhores “descedores” ou down-hillers de todos os tempos, uma leitura de corrida fantástica (sem rádios!) e muito potente rodando ou escalando. Três vezes vencedor do Tour de Flanders e Giro d’Italia, além de vencer etapas em todas as grandes.
Um gênio do ciclocross, Jean Robic foi também um magnífico escalador. Ganhou o Tour na sua primeira participação (1947) sem portar um dia sequer o maillot jaune. Depois disso foi duas vezes Top5.
Rapahel Geminiani não tem grandes vitórias, mas foi um “vueltomano” pela sua regularidade e capacidade de escalador. Por 11 vezes foi Top10 nas 3 grandes, incluindo rei da montanha do Tour e do Giro, além de um 2º. Lugar no Tour.
Um dos primeiros espanhóis a detacar-se no cenário internacional, Bernardo Ruiz, ótimo escalador e o primeiro espanhol a subir no pódio de Paris.
O maior rival de Coppi nas clássicas: Rik Van Steenbergen. Rik I (1) foi o segundo tricampeão mundial, além de vencer muitas clássicas e fazer pódio nas 3 grandes. Era um ogro. Difícil dizer ser era melhor sprinter ou rodador, mas para resumir basta dizer que durante sua carreira conseguiu quase 1.000 vitórias.
Geração Merckx
Uma verdadeira força da natureza e com cabeça de ferro. São muitos que dizem que sem sua queda em Blois seu reinado teria sido mais feroz. A época denominada “merckxismo” começa em 1º. de junho de 1968 em Tre Cime di Lavaredo, arrasando seus adversários sob a neve e acaba em Puy de Dome em 15 de julho, após levar um soco de um francês abobado.
Iniciou como profissional junto com Merckx: Felice Gimondi foi um corredor que poderia ter tido um currículo escandaloso se não tivesse nascido na época errada.
Sinônimo de azarado. Raymond Poulidor, grande “vueltomano” que não soube (ou não conseguiu) aproveitar sua superioridade nas montanhas com Anquetil e nem com Merckx.
Joop Zoetemelk, bom rodador que administrava muito bem suas deficiências na montanha. Muito constante e sempre atento nas corridas, conseguindo bons e importantes triunfos em muitas provas.
Luis Ocaña. Um corredor com um potencial incrível em terrenos variados mas de cabeça fraca. Deixava-se levar pela emoção e sempre tentava vitórias heróicas – coisa que conseguiu algumas vezes – mas que teria melhor sorte se tivesse seus esforços concentrados contra adversários específicos.
José Manuel Fuente, El Tarangu. Era um dos poucos melhores do que Merckx num quesito: a alta montanha. Rápido e ágil, era um escalador sem igual. Nunca teve sorte nas corridas (e nem fora delas) e não conseguia concentrar-se num objetivo. Tinha algumas deficiências nas descidas e não rodava muito bem.
Era um tempo de domínio belga e Roger de Vlaeminck (irmão do maestro do ciclocross) é talvez o maior “clasicomano” que já surgiu no ciclismo. Junto a Merckx e Van Looy, o único ganhador dos 5 monumentos e de muitas etapas em muitas corridas. Ganhador nato pelas suas qualidades de rodador, potência e rapidez.
Outro compatriota, mas não amigo: Walter Godefroot. Excelente sprinter e ótimo “clasicomano”. Outro belga indomável.
Lucien Van Impe: escalador puro, tinha dificuldades nas gerais das voltas, mas em etapas mortíferas das montanhas sempre estava lá.
Outro ogro que apareceu no final da carreira de Merckx: Freddy Maertens. Capaz de ganhar em todos os lugares e de todas as formas, impor-se numa Vuelta em 12 etapas e fazer exibições em todas as corridas. Nunca foi muito regular, para desgraça do ciclismo.
Supervalorizado pelos franceses, Bernard Thévenet foi um grande escalador e tem a honra de ter destronado Merckx no Tour.
Falando diretamente, tenho a impressão de que os rivais de Coppi eram de um nível melhor, mas Merckx teve mais gente para se preocupar.
Na minha opinião: empate.
Poderia fazer dois meses do jogo “Quem é o ciclista?” só com as imagens dos adversários deles
No pelotão com Hebert Polizio
30/Julho/2009Eddy
23/Julho/2009Eddy Merckx sofre um grave acidente
17/Junho/2009O ano é 1969, em Blois, durante um treinamento o técnico de Merckx, Fernand Wambst que fazia o trabalho de puxador com uma derny race (bicicleta motorizada), dando o vácuo a Merckx e outro companheiro cai.
O companheiro de Merckx cai e em seguida ele também sofre uma violenta queda. Seu treinador morre instantaneamente.
Merckx fica inconsciente. Sofre uma fratura numa vértebra e graves lesões na pélvis.
Depois desse dia ele passou a ter muitas dificuldades em conseguir uma posição confortável sobre a bicicleta. Frequentemente precisava mudar de posição para amenizar as dores que sentia.
“O acidente em Blois foi terrível para mim. Desde esse dia, o ciclismo transformou-se num sofrimento. Levei pontos na cabeça, raspei todo o corpo, mas as lesões cicatrizaram.
Tive sorte, pois eu poderia ter morrido, mas o problema do acidente foi o dano que ele causou na minha coluna. Meus quadris foram nocauteados. Isso significa que minhas pernas estavam fora de sintonia com o resto do meu corpo.
Após esse dia, nunca mais pude sentar confortavelmente numa bicicleta. Eu mudava minha posição e precisei mudar os ângulos de ajuste.
Gostaria de ter muitas bicicletas, todas sutilmente diferentes, prontas para correr, mas nunca encontrei a posição ideal. Antes de Blois, não posso dizer que não sofri numa corrida de bicicletas; o Tour foi um exemplo. Eu apenas precisava pressionar os pedais quando queria, era tudo o que eu tinha de fazer. Depois do acidente, a dor era constante, em alguns dias tinha vontade de chorar, em outros eu estava OK.
Uma vez, no final da minha carreira, estava pedalando ao Alsemberg, em Bruxelas, e perguntei-me o que eu estava fazendo ali. Pensei que teria que descer e caminhar, mesmo ela não sendo muito íngreme ou longa. Minhas costas eram a minha fraqueza e isso ainda hoje me afeta: não posso andar de bicicleta por causa dela.”
Relação das vitórias de Merckx após 1969, quando ele já não era o mesmo:
1970 (Team Faema-Faemino)
Tour de France, Geral, Montanhas, Mais combativo e 8 etapas
Giro d’Italia, Geral e 3 etapas
Paris-Roubaix
La Flèche Wallonne
Gent-Wevelgem
Paris-Nice
Ronde Van Vlaanderen
Critérium des As
Flag of Belgium National championship
Super Prestige Pernod International
1971 (Team Molteni)
Tour de France, Geral, Pontos e 4 etapas
World championship
Milan-Sanremo
Liège-Bastogne-Liège
Giro di Lombardia
Rund um den Henninger Turm
Omloop “Het Volk”
Paris-Nice
Critérium du Dauphiné Libéré
Grand Prix du Midi Libre
Tour of Belgium
Giro di Sardegna
Super Prestige Pernod International
1972 (Team Molteni)
Tour de France, Geral, Pontos e 6 etapas
Giro d’Italia, Geral e 4 etapas
Hour record – 49.431 km
Milan-Sanremo
Liège-Bastogne-Liège
Giro di Lombardia
La Flèche Wallonne
Giro dell’Emilia
Giro del Piemonte
Grote Scheldeprijs
Trofeo Baracchi, with Roger Swerts
Super Prestige Pernod International
1973 (Team Molteni)
Giro d’Italia, Geral, Pontos e 6 etapas
Vuelta a España, Geral, Pontos, Combinada, Sprints e 6 etapas
Paris-Roubaix
Liège-Bastogne-Liège
Amstel Gold Race
Gent-Wevelgem
Grand Prix des Nations
Omloop “Het Volk”
Paris-Brussels
Giro di Sardegna
GP Fourmies
Super Prestige Pernod Trophy
1974 (Team Molteni)
Tour de France, Geral, Combatividade e 8 etapas
Giro d’Italia, Geral e 2 etapas
World championship
Tour de Suisse, Geral, Pontos, Montanhas e 3 etapas
Critérium des As
Super Prestige Pernod Trophy
1975 (Team Molteni)
Milan-Sanremo
Ronde van Vlaanderen
Liège-Bastogne-Liège
Amstel Gold Race
Catalan Week
2 etapas, Tour de France
1 etapa, Tour de Suisse
Giro di Sardegna
Super Prestige Pernod Trophy
Six Days of Ghent (with Patrick Sercu)
1976 (Team Molteni)
Milan-Sanremo
Catalan Week
1977 (Team Fiat)
1 etapa, Tour de Suisse
Tour Méditerranéen
Six Days of Munich (with Patrick Sercu)
Six Days of Zürich (with Patrick Sercu)
Six Days of Ghent (with Patrick Sercu)
Se ruim ele já ganhou tudo isso, se estivesse 100% seus adversários precisariam contratar alguém para quebrar uma das pernas dele para dar igualdade de condições
.
A foto do início do post é meramente ilustrativa.
Frase do dia
09/Junho/2009
Entre Merckx e eu, ganhamos todas as clássicas: eu ganhei a Paris-Tours, e ele todas as outras.
Noël Vantyghem, corredor belga.
Até tu, Merckx?
22/Abril/200911 de Julho de 1975 – A morte de um sonho
04/Março/2009Era a 14a. Etapa da edição de 1975 do Tour de France.
A etapa chegava ao Puy de Dôme, o majestoso vulcão que sempre atrapalhou o Canibal, onde foi vencido por Ocaña em 71 e não sabia que pouco depois voltaria a ser derrotado, ainda que de outra maneira muito mais injusta.
Faltavam 5Km para a meta e Thévenet ataca, o herói nacional que começava a etapa a 2 minutos do belga e lhe segue Van Impe. Merckx fez o de sempre: escolheu uma distância segura e subiu no seu ritmo, o suficiente para que eles não fugissem. Assim chegaram até os últimos 100 metros, quando Van Impe forçava a Thévenet que fraquejava e Merckx lançaria seu poderoso sprint. Então apareceu ele.
Um fanático francês que não suportava a superioridade do belga deu-lhe um forte soco no fígado, deixando Merckx sem respiração. Van Impe ganhava a etapa com 15 segundos sobre Thévenet e 49 sobre um exausto Canibal. Mantinha a liderança por pouco mais de 1 minuto e isso não parecia tão grave.
Enquanto o espectador era preso, a equipe Molteni fazia as malas para o dia de descanso, para após partir para duas etapas nos Alpes. Segundo o médico da equipe, “o golpe sensibilizou a região hepática, não é grave”. Merckx tomou anticoagulante para facilitar a renovação do sangue na região e evitar um doloroso hematoma e calmantes para dor, que poderiam causar efeitos secundários: problemas digestivos.
Especula-se que o ataque do fanático francês visava exatamente impedir uma sexta vitória de Merckx que ultrapassaria então Jacques Anquetil. Entenderam agora qual é o maior medo de Lance Armstrong?
Eddy Merckx era um maníaco pelo descanso e essa noite não foi a melhor da sua vida. Entre o problema no ciático (que tinha desde 1969 após uma queda no velódromo de Blois) e a contratura ocasionada pelo soco, não encontrou uma posição ideal para dormir.
Antes da jornada alpina de 217Km tenta alimentar-se apesar dos problemas digestivos. O penúltimo passo da etapa (Allos) é perfeito para ele: longo e constante. No último quilômetro vê o sofrimento de Thévenet e ataca para decidir o Tour apesar de suas moléstias. Coroa com 25 segundos de vantagem, faz uma descida perfeita e encontra-se na parte plana com quase 2 minutos de vantagem. Tudo parece dizer que está com o 6o. Tour nas pernas. Mas eis que aparece o problema. Nas primeiras rampas da escalada final a dor o superou. Não podia nem com sua alma. Gimondi avançou e levou com ele Thévenet, que incrédulo, se pôs na sua roda. Ao ver que Merckx estava quase parando, se foi (foto) e tirou quase 2 minutos e a liderança na meta.
Na etapa seguinte, ataca, valente como sempre, mas Thévenet tira mais 2 minutos no Izoard. “Tentei tudo e perdi tudo. Acabou-se. Não ganharei este Tour”, dizia o belga.
Mas no dia seguinte, ele estava lá novamente: no pé do Izoard, Merckx envolve-se numa queda, batendo o rosto contra o solo e fraturando a mandíbula. Ataca no Colomière e não tira proveito nenhum, apenas um segundo lugar na meta, graças ao seu poderoso sprint. Acaba com o rosto desfigurado e todos lhe dizem que precisa abandonar a corrida imediatamente, ao que responde: “não posso retirar-me, isso tiraria os méritos da vitória de Thévenet”.
A prova segue e ele só pode ingerir alimentos líquidos. No contra-relógio de 40Km, a roupa gruda de uma maneira tal a sua pele que é preciso que cortem com tesouras na linha de chegada. “Hoje descobri a dor”, disse ao chegar.
Acabou em segundo, a 2′47″ de Thévenet. Mas o importante é que demonstrou porquê é considerado o maior ciclista da história.
O tubular de Merckx
30/Dezembro/2008
O Kwaremont é um dos “muurs” ou “bergs” que pipocam na clássica dos Flandres. A distância até a meta era de 104Km, mas foi ali onde Merckx lançou um ataque irresistível. Somente Frans Verbeek conseguiu acelerar o suficiente para colocar-se em sua roda.
Verbeek era um bom corredor de clássicas, mas apesar disso não conseguiu muitas vitórias. Entre 1965 e 1976 fez segundo lugar em 15 ocasiões, cinco delas atrás de Merckx. Nesse período venceu 2 Het Volk, 1 Fleche-Wallone e 1 Campeonato Belga (na frente de Merckx).
Verbeek conta: “Tentava puxar de vez em quando. Fazia o que podia, mas não podia muito… Não falávamos muito, com Eddy não se fala muito, e ele não pedia nada. Depois de 10Km compreendi que ele queria chegar até o final assim, mas eu não sabia se conseguiria seguir com ele.”
Atrás vinham Maertens, Pollentier e Demeyer, que tentavam caçá-los. Em Keuisberg a diferença dos fugitivos de um grupo de 31 corredores era de 45 segundos. Depois de 35Km de caça só restavam 15 segundos. No Varenberg, a 65Km da meta, somente 9. E foi então que a diferença voltou a aumentar.
Palavras de Verbeek: “Em Gramont, eu não via nada, pensava que tinha algo nos olhos e chamei meu diretor para pedir-lhe um lenço… mas não tinha nada, não via nada porque estava acabado. No Bosberg, a última subida, tinha medo de cair, estava muito mal… creio que Merckx teve pena de mim e reduziu o ritmo para não abandonar-me”.
Mas a compaixão tem seus limite e a 5Km da meta Merckx atacou para chegar só. Verbeek chegou a 30 segundos e o terceiro, Demeyer a 5 minutos e 2 segundos.
Verbeek declara: “… estou feliz pelo segundo lugar. Fui o segundo atrás de um grande Merckx… rodava sempre com dois dentes a menos do que eu. O que eu mais vi na prova foi seu tubular traseiro: um Clément”.

Escrito por Zaka 



















Escrito por Zaka 
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