Entrevista publicada em jornais espanhóis.

Vejo coisas em Contador que só vi em Armstrong

Johan Bruyneel, ex-diretor do americano e agora técnico do espanhol, acaba de incorporar-se ao Giro, uma corrida que seu líder não queria vir.

J. Gómez Peña – Locarno

Bruyneel foi o diretor dos sete Tours de Armstrong. O quê pode ainda causa assombro no técnico que guiou o corredor perfeito? Há alguém: Contador.
“Alberto segue me surpreendendo. Seu talento”, confessa em Sondrio. Acabou de chegar ao Giro, a Lombardia, uma região apoiada na montanha. Como seu líder.

-Esperava ver Contador de rosa?
Me surpreendi, muito. Imaginávamos que não nos convidariam para o Giro até 8 dias antes da saída. Era uma sexta-feira. A organização da prova nos disse que teríamos que trazer Alberto.

-Contador estava na praia
Isso. Sei que alguns não acreditam, mas estava no Hotel Barceló, em Cádiz, com sua noiva, relaxando. Não havia sequer levado a bicicleta. Teve que cancelar os dois últimos dias de suas férias.

-Como se sentiu?
Bem. Disse que era muito importante para nosso patrocinador. Que teria que correr o Giro. Me respondeu que ele não poderia ir a uma corrida sem prepará-la. Disse-lhe que era inegociável, que teria que estar na saída em Palermo, isso poderia fazer. Alberto não estava nada contente, repetia que ele não poderia ir.

-No final, lhe convenceu.
Voltei a chamar-lhe em dois dias. Já havia saído para treinar, estava em Madrid. Havia trocado de pensamento. Essa segunda conversa foi mais suave, e na saída em Palermo já estava com ilusões, confiava em poder regressar.

-Passou mal na primeira chegada complicada de Agrigento, onde ganhou Riccó.
Quando o vi pela televisão pensei: “Como se nota que vem de férias”. Mas, bem, o Giro exigia sua presença. Já disse a Zomegnan (diretora da prova) que nosso líder seria Kloden. Não lhe prometi que Contador estivesse no auge. E olhem agora. Alberto segue me surpreendendo. Não esperávamos. Tive que montar a equipe em 10 horas, trocar o calendário dos corredores, chamar os auxiliares…

-A Astana passou de excluída a dominadora Para uma equipe, o melhor que pode acontecer é que leve o maillot de líder.
Isso eu vi com Armstrong. Os companheiros se transformavam, sobretudo na última semana. É a mais dura, e a equipe do líder tem um porquê para sofrer, pela maglia rosa. Sempre digo que o melhor doping é ser líder. O doping da liderança.

-Com Armstrong a preparação do Tour era meticulosa. Contador manda num Giro que nem conhece.
Bom. Ele outro dia foi ver o Mortirolo. Já ganhei um Giro com Savoldelli (Discovery). Mais importante que conhecer o percurso é ter formado uma equipe nestas duas semanas. Kloden e Leipheimer apoiaram com sua experiência.

-Contador disse que já passou o mais duro.
Será duro até o final. Mas prefiro ter agora 41 segundos de vantagem que ter que tirá-los nas etapas que restam.

-A qual rival teme?
Simoni. Por sua experiência. Conhece bem o Giro.

-E Riccó?
Fala muito. É um bom corredor e tem estado muito forte.

-Haverá aliança italiana contra Contador?
Não sei. Restam três dias chave. E o contra-relógio pode jogar a seu favor.
Para os escaladores pode tirar entre 40 segundos a 1 minuto.

-Sua preparação será prejudicado por ter vindo ao Giro sem preparação adequada?
Não creio. Pode manter-se assim até o final. Vi Armstrong começar um Tour a 100% e acabar igual. Alberto estava mal na Vuelta al Pais Vasco e logo parou. Quiçá tenha feito bem este descanso.

-Disputará a Vuelta em setembro?
Claro. Há tempo de sobra para recuperar-se. A combinação Giro e Vuelta é a ideal.

-Zomegnan disse que Contador pode ganhar o Giro e o Tour na mesma temporada.
Todavia, não. É jovem. Isso é para corredores de trinta anos. Alberto ainda está se conhecendo.

-Inevitavelmente fazem comparações. A que se parece mais, Induráin ou Armstrong?
Eu posso falar de Armstrong. E vejo coisas em Alberto que só vi em Armstrong. Essa maneira de subir. Depois de retirar-me do ciclista, comecei a dirigir Armstrong. Eu sabia como se sobe as passagens de montanha do Tour na ponta. E seguir Armstrong nos treinamentos era incrível. Só com ele e com Alberto tive essa sensação.

-Contador assegura que vir ao Giro sem pressão o beneficiou.
Se não ganhar, não acontece nada. Não podemos pedir milares. Ainda que até agora já é quase um milagre.

-Um líder que chegou sem preparação. Isso rompe todos os tratados de treinamento.
É que o ciclismo é mais sensível do que se crê. Alberto é muito bom. Só um corredor assim pode fazer o que está fazendo.

-O quê comenta Armstrong?
Está impressionado. Lance sempre foi fã de Alberto. Sempre me disse que deveria contratá-lo. Ele viu algo. Agora posso dizer que Alberto é o melhor corredor do mundo.

-Com apenas 25 anos.
Ainda não vimos seu auge. Tem mentalidade de campeão, essa confiança em si mesmo.

-Em que pode melhorar?
Em experiência e em conseguir mais resistência. Esta feito para ganhar grandes voltas. Este Giro não veio no auge e está demonstrando que saber ver a prova, mover-se nela. Aprende muito rápido.

-Crê que agora o Tour mudará de postura e convidará a Astana?
Não sei dizer.