Nosso enviado especial enviou-nos a entrevista exclusiva feita com Lance Armstrong. Aproveitem.

AUSTIN (TEXAS, E.U.A.), 14 de outubro de 2008

A casa de Lance Armstrong é a única na colina rodeada por muros. Os portões são abertos somente com hora marcdada, no final de uma tarde ensolarada e úmida.

Pinturas originais, sofá confortável. Lance estã de bermuda e camiseta, descalço. Obriga-nos a tirar o casa, porquê o Texas não é como Paris, Milão ou New York: aqui o protocolo não conta.

Armstrong, quando decidiu correr no Giro?

Na semana passada, mas a idéia foi pensada por um longo tempo. É uma das lamentações de minha carreira. Mas eu adoro a rotina. Venci na França pela primeira vez sem passar pelo Giro e por isso não quis alterar um programa já testado. Mesmo na vida sou muito metódico, as mudanças me trazem insegurança.

Mas e agora?

Agora é diferente. Fechar esta lacuna, é o Tour centenário, morei na Itália por quase cinco anos, tenho muitos amigos. Existe uma possibilidade de tornar conhecida na Itália a luta contra o câncer. Portanto, estou realmente feliz.

É para ganhar ou apenas como preparação para o Tour?

Não tenho nenhuma experiência nesta corrida. No outro dia eu conversei com Axel Merckx e fiz um monte de perguntas. Estou animado: seguramente vou entrar para tentar ganhar. Porquê existe a possibilidade de que o Giro seja a única prova de três semanas que estarei correndo. Mesmo hoje, há dúvidas quanto ao Tour. Todos saber da sua importância, mas com os problemas que tenho com os organizadores, jornalistas e torcedores eu poderia distrair-me da missão: concentrar a atenção do mundo na luta contra o câncer.

Então poderia não ir ao Tour?

Espero que haja uma solução pacífica e diplomática. Antes de anunciar o meu retorno, entrei em contato com a organização, mas ainda não tive resposta. Há uma possibilidade de não ser convidado? Tudo é possível. Eu quero estar em Paris, mas em uma situação de tranquilidade.

Qua a razão da volta ao ciclismo?

Por duas razões. A primeira é que acho que ainda posso ser competitivo no esporte. O segundo, social. Andando de bicicleta posso ser muito mais eficaz na luta contra o câncer. Em julho, assisti o Tour na TV e voltou o desejo. A decisão final veio em agosto, no dia em que fiquei em segundo na prova de mountain bike no Colorado. Aí eu tinha as respostas para o que estava procurando.

Então, porquê há três anos deixou o esporte?

Queria passar mais tempo com meus filhos e decidar mais atenção à fundação. Antes de tomar essa decisão eu pedi a minha família. Se Kristin, minha ex-esposa e meus filhos tivessem colocado um veto, eu teria desistido da idéia.

Críticos dizem que Don Catlin, o pesquisador que deve assegurar sua transparência não pode ser totalmente independente, porquê você vai pagar-lhe.

A equipe vai pagar, não eu. Em matéria de dopagem é uma autoridade com reputação incontestável. Mas vou ser testado pela USADA, WADA, UCI, CIO: eu estarei a disposição de todos, a qualquer momento. A WADA veio aqui há dois dias, os resultados serão tornados públicos na Internet.

Transparência total?

Se eu tenho que ser testado todos os santos dias, é difícil cometer irregularidades. Se pedalo no CR tão rápido como antes e subo a montanha como há três anos, a discussão deve terminar aqui, não achas? Mas estou certo que haverão dúvidas, como sempre: “Ok, em 2009 Lance estava limpo, mas no passado?”.

Afirmou recentemente: “o ciclismo não deve lamentar-se, deve punir os culpados e ir em frente”. Após os muitos casos de doping não perde muito fácil a confiança?

É verdade, perdeu-se a confiança entre corredores, dirigentes, organizadores, jornalistas, patrocinadores e claro, os fãs. Somos mais testados do que em outros esportes. Mais fácil, portanto, ter casos positivos. Gostaria que tivéssemos os mesmos controles que outras disciplinas, mas os jogadores de futebol concordam em ser testados como nós?

Deixe-e falar um nome: Ivan Basso.

Eu o conheci em 1993. Era muito jovem, um júnior. Tentamos trazê-lo para nosso time. Em 2004 nos tornamos amigos também devido à doença de sua mãe, que infelizmente o tratamento não teve efeito. Depois veio a Discovery Channel (em 2007), mas ele estava envolvido na Operacion Puerto e não disse nada, então fizemos papel de idiotas. Agora, porém, admitiu sua culpa e pagou por isso. Acho que é hora de correr e deixem-no em paz. Vai correr no Japão e no Giro. Eu o coloco entre os meus favoritos.

Marco Pantani?

Um personagem trágico, um grande corredor, na Itália é uma espécie de ícone. Estilo de vida errado, sempre cercado de más pessoas. A tempestuosa relação que tivemos ele tentou repetidametne costurar, mas nunca conseguimos. Um bom homem com um terrível fim.

Armstrong, está preocupado com a economia mundial?

Sim. Temos que encontrar novas formas de administrar a economia, não podemos permitir mais oito anos como esse. A economia está no lodo, a imagem dos EUA comprometida, estamos envolvidos numa guerra que nos custa centenas de milhões de dólares. Falo do Iraque, não da guerra do Afeganistão. Então temos que mudar.

É amigo de Bush, mas falando como um apoiador de Obama.

Mas eu nunca disse que sou um democrata… eu gosto de Obama, mas que McCain. Sei de Busch quando ele era governador do Texas. Acho isso engraçado, mas não concordo com muitas das suas escolhas. Ah, é um discreto ciclista.

É verdade que vai concorrer ao governo do Texas?

Talvez em 2014. Certamente é algo que tenho em mente, mas é uma tarefa difícil que requer sacrifícios, como o ciclismo. Novamente a opinião da minha família será decisiva.

Uma vez disse que o seu maior erro foi ter assinado com um time francês, a Cofidis.

Eu disse brincando, mas eu fiz o jogo sujo: tive diagnóstico de câncer, começou o tratamento e eu estou errado. O que eles fazem? Rompem o contrato. Me pareceu um jogo simpático.

Ama o vinho: não dizem que o seu favorito é o francês?

Eu não conheço-os bem, digamos que eu amo o Sassicaia e o vinho toscano.

Talvez abra uma garrafa para comemorar a maglia rosa?

Talvez. Estou ansioso para chegar o dia da partida.

A entrevista é real, o “enviado especial” é brincadeira. Essa entrevista foi publicada hoje na Gazzetta e foi feita pelo jornalista Massimo Lopes Pegna.