Coppi e Eu – Parte 1

Por Gino Bartali
Traduzido da revista francesa “Le Miroir des Sports”, 1960.

Em algum momento pode ter ocorrido alguma “inconsistência” na tradução: a entrevista foi feita em italiano, publicada em francês, traduzida para o inglês e agora para português.

Os comentários necessários ao entendimento da história estarão destacados entre [ e ].

Bartali nasceu a 18 de julho de 1914, perto de Florença e morreu em 5 de maio de 2000. Coppi nasceu em 15 de setembro de 1919 em Castellania (Piemonte) e morreu em 2 de janeiro de 1960. A distância de 5 anos foi crítica: enquanto Fausto fazia sua estréia, Bartali já era o ídolo (2 Giro, 1 Tour e um punhado de outras corridas). Na verdade Fausto começou sua carreira como carregador de água para Bartali.

Bartali começa suas reflexões no caminho lamacento retornando do enterro de Coppi no pequeno cemitério de Castellania.

Eu nunca vou esquecer essa lama que gruda nos meus sapatos no caminho até Castellania. Lá está o corpo de Fausto, onde o puseram no seu túmulo. Eu lembrei de outras lamas, a lama que ficou presa nas minhas pernas e nas de Fausto durante as terríveis etapas Dolomitas… e a imagem de Fausto correndo como uma criança sobre a estrala lamacenta.

Fausto! Todos seus amigos aflitos sobem para a sua nova casa saudar o seu corpo. E meu coração está pesado, com uma tristeza inexprimível. Eu te vi, uma última vez, imóvel no caixão. Mas a multidão ao meu redor só me deixa sentir uma confusão triste.

Fausto! Não me culpe se eu não chorei perante o seu cadáver congelado. Eu nunca chorei, mesmo nos momentos mais infelizes da minha vida. Não deixei cair uma lágrima pela morte de meu irmão e nem pela do meu filho. A tristeza me agarrou na frente da sua mortalha, Fausto, e me deixou com os olhos secos.

A partir do momento em que desapareceu, Fausto, finalmente terminou nossa antiga rivalidade até que estejamos novamente reunidos como companheiros de uma nova competição desportiva.

Os sons impiedosos da terra sendo jogada em seu túmulo lembram-me muito claramente que está tudo acabado.

Andei nessa mesma estrada para Castellania em 1951, em outra circunstância triste: a morte de Serse [irmão de Fausto, vítima de um acidente durante o Tour de Piemonte]. No primeiro momento, o acidente, perto de mim na corrida não pareceu muito grave. Depois da corrida Serse cumprimentou-me pela vitória, mas mais tarde no hotel entrou em coma e poucas horas depois morreu no hospital.

Serse foi, junto comigo, o único que entendeu Fausto. Após o término de cada corrida ele vinha até mim e repetia sempre a mesma pergunta: “Por quê você e Fausto não chegam a algum tipo de acordo? Vocês dois ganhariam todas as provas e eu, pobre gregário, sofreria muito menos”.

Nessa mesma estrada do cemitério eu encontrei Bruna Coppi [primeira esposa de Coppi, separada há seis anos do corredor] a quem não via há muito tempo. Ela parecia despenteada, com os olhos cheios de lágrimas. A fim de evitar os fotógrafos encontrou refúgio num carro ao lado da estrada.

“Eu sempre esperei que Fausto voltasse”, Bruna disse. “No Natal ele telefonou para casa e eu atendi”.

“Ciao Bruna”, ele me disse, “Marina [a filha] está? Gostaria de lhe desejar Boas Festas”.

“Fausto telefonou para Marina algumas vezes. Apenas nós três sabíamos disso. Eu estava convencida que um dia ou outro ele voltaria. Ele amava Marina demais para abandoná-la completamente. Não sei se ele não me amava mais, mas ele adorava a filha. Eu não mudaria os últimos desejos de Fausto, mas vou dizer a Faustino [meio-irmão de Marina] que ela tinha direito de esperar o pai”.

Eu entendi as emoções de Bruna. Talvez tenha sido cruel, mas eu perguntei se ela tinha realmente entendido Fausto.

“Eu sei, eu sei”, respondeu ela. “Eu estava muito preocupada com os perigos das corridas, não gostava delas. Eu não conseguia ver nada além de Fausto na minha frente, não conseguia pensar em nada mais além dele”.

 Uma lembrança veio à mente. Foi em 1945 em Ospedaletti na véspera do casamento de Fausto e Bruna. Durante a corrida perguntei a Fausto o que ele gostaria de presente de casamento.

“Se você ganhar”, ele responde, “Dê-me o seu buquê de flores para que eu possa oferece-lo à Bruna. Seria o mais bonito dos presentes”.

Perto do final da corrida, Fausto foi embora e eu não tive coragem de resistir e tentar impedir a sua vitória.

Na linha de chegada, ele veio até mim com um olhar triste. “Estava tudo arranjado. Você deveria ganhar, eu só queria as flores”.

Eu tive muita dificuldade para convencê-lo de que nesse dia ele estava muito forte para que eu conseguisse batê-lo.

Este foi o Coppi real, meu amigo, Coppi, com quem, durante 20 anos lutei em todas as estradas da Europa…. sob o sol, chuva, neve… e  garanto que sempre fiz o meu melhor para não ser batido por ele. Mas se eu não pude ganhar, fiz todo o possível para fazer com que ele não ganhasse. Éramos, eu e ele, dois rivais animados por uma luta sem comparação. Mas nunca fizemos outros sofrerem. Preferimos correr um contra o outro na cabeça do pelotão, certificando-nos que nenhum de nós tivesse fugido. Nós quase fizemos uma corrida de dois, sem nos preocuparmos com os outros.

Coppi para mim, sempre foi uma criança grande, mesmo quando completou 40 anos. Nunca teve tempo para se tornar um adulto. Ele só tinha medo do dia em que não poderia mais correr de bicicleta. Foi o mesmo comigo: minha única preocupação era a corrida, e a corrida. Eu nunca tive tempo para pensar em mais nada. “Como você teve coragem de parar?” perguntei uma vez para Fausto. Essa foi uma coragem que eu nunca tive. Eu nunca pude me ver longe do selim da minha bicicleta.

E agora essa doença terrível que ele trouxe da África. Sem sua paixão pelas corridas, querendo continuar a ser uma criança, nunca teria feito essa viagem fatal para a África.

Fausto foi realmente o melhor corredor de todos os tempos. Isso não pode haver nenhuma dúvida. Tenho orgulho de ter sido um dos seus rivais mais leais. Na minha longa carreira, tive muitos adversários, mas nenhum ao nível de Coppi, nenhum teve sua classe. Ele foi além de todos, ele era superior a todos eles. Ele foi superior até mesmo a mim. Ele foi além de mim.

Eu era um escalador excelente e poderia ser mais rápido do que ele no sprint. Mas Fausto, não de todo ruim nessas especialidades, foi imbatível como rodador e na pista. Não tenho vergonha de dizer que eu precisava de ajuda, um companheiro de equipe para ficar com ele no pelotão. Mas não Fausto. Para ele a vitória estava na sua frente em qualquer tipo de percurso. Esse não era o meu caso. Ele foi, no conjunto, mais completo. Nossos físicos eram diferentes, embora nossos motores estivessem sempre acelerados.

Na sua bicicleta ele era bonito, como um deus. Quando ele descia do selim, se tornava novamente um mortal comum. Mas enquanto pedalava apresentava um quadro de extrema beleza. Não importa como era a corrida, ele sempre parecia um homem passeando na bicicleta. Ele tinha uma maleabilidade, uma espécie de movimento plástico que fazia um espetáculo perfeito. Pode-se entender como as multidões, durante tantos anos, ficavam tão animadas para assistí-lo pedalando.

Mas o cansaço marcou o seu corpo, deixando vestígios que não escaparam ao meu olhar crítico. Durante os tempos dos nossos primeiros confrontos, estudei cada centímetro do seu corpo. Eu o conhecia quase melhor do que eu. Eu o tive uma vez na minha equipe e sabia as minhas fraquezas, fui obrigado a estudá-lo minuciosamente para encontrar os seus pontos fracos.

Essa história começou durante o Giro de 1940, onde Coppi, supostamente meu gregário, foi o vencedor. Minha posição como líder da equipe fazia com que eu tivesse que explicar aos membros da equipe minhas vulnerabilidades para que eles pudessem me ajudar quando eu precisasse. Eu tinha confiado em Fausto, como seria natural. Naquela época eu estava longe de supor que ele se tornaria o meu maior rival. Você sabe, dei os segredos de Estado para o inimigo!

Eu não podia pedir-lhe que retribuisse o favor. Então, estudei ele, olhei para ele, examinei ele, passando tudo por um crivo para pegar a menor excentricidade que implicaria em fraqueza. Então, um dia, minha tenacidade foi recompensada. Percebi alguma coisa. Finalmente eu sabia!

Atrás do joelho direito, uma veia inchada com 5 ou 6 centímetros, aparentemente sob pressão para livrar a perna de resíduos tóxicos. Essa aparição fez-se evidente entre 160 e 180Km de uma corrida. Naquele momento, Fausto tornou-se vulnerável e perdeu um pouco da agilidade que normalmente exibia.

Um dia, no Giro de 1948, decidi ver se eu poderia lucrar com a minha descoberta. Eu disse ao meu gregário Corrieri, para ficar olhando atrás do joelho de Fausto e dizer-me se percebia alguma mudança. Em certo momento, Corrieri veio até mim no meio do pelotão, gritando com sua voz chorosa “A veia! A veia!”. Claro que ninguém sabia o que era isso, muito menos o Fausto. Mas eu sabia e eu deslizei através do pelotão para confirmar a observação do meu espião. Com um olhar eu pude ver a veia realmente inchada.

“Vão! Vão!” eu gritei para Van Steenbergen (Rik I), Koblet (Le pedalleur de charme), Kübler (Die Nase) e quem estava ao meu redor. “Coppi está em dificuldades!”.

“Você está louco?” perguntou Rik.

“Siga-me!” eu gritei. Todos atacaram. E, no final, Fausto perdeu quatro minutos.

25 respostas para Coppi e Eu – Parte 1

  1. ivan disse:

    Puxa que matéria sensacional, vc merece um patrocínio por nos trazer tamanhos tesouros!

    • Zaka disse:

      Ivan,
      Essa “caiu” na minha tela sem querer… já disse algum dia que tenho sorte (ou dom) pra achar essas coisas?
      Amanhã tem o final.
      Abraço.

  2. Eder disse:

    Nossa, sensacional mesmo, me EMOcionei aqui lendo…
    Parabéns Zaka

  3. george disse:

    Simplesmente sensacional…

  4. Li disse:

    aguardando o final, ansiosamente…😛

  5. Facchini disse:

    Fatalmente o local para tal pergunta não este, porém sei que todos vão entender.

    Lembro que aos meus 12 anos (10 anos atraz) passava um filme com certa regularidade na globo sobre ciclismo.

    Onde existia um ciclista mais experiente e um outro jovem. Lembro que numa das escaladas o ciclista mais velho perde sangue pelo nariz e etc..

    São poucas memórias mas queria saber o nome do filme, alguma dica?

  6. Ramiro Junior disse:

    Muito legal…

    E pelo trecho “…Ela parecia despenteada, com os olhos cheios de lágrimas. A fim de evitar os fotógrafos encontrou refúgio num carro ao lado da estrada…”,dá pra perceber como os ciclistas são idolatrados na Europa(No texto,Itália),tem mercado e público pra isso….

    Parabens pelo post,Zaka…Como sempre,o melhor site de bike do BR….

    Abs.

  7. Rodrigo Fiera disse:

    relato fantástico.

  8. Rodrigo Fiera disse:

    Sobre o filme citado, tem uma cena no youtube. Algumas coisas que beiram a heresia, mas vale conferir:

    e tem esse, pra quem gosta de roda fixa, mas é mais herege ainda:

  9. Max disse:

    …Sem comentários! Até reescrevi para meus colegas contando esta história!!

  10. jucaxc disse:

    muito boaaaa ! valew Zakarias kkk !!!

  11. jafo disse:

    ZAKA QUE MARAVILHA POR ISSO QUE PASSO POR AQUI 2 A 3 VEZES POR DIA VALEU!!!

  12. José Carlos SBC/SP disse:

    Tem que esperar até amanhã para ler o final? ão precisa castigar a gente dessa maneira!! hehehe

  13. Gabriel Sousa disse:

    Belíssima história!
    Obrigado Zaka!

  14. elcio disse:

    Manda mais!

  15. Zeca Blak disse:

    Parabéns, Grande Zaka! Vc é siniiiistro!
    Se uma veia saltada atrás do joelho do Coppi significava perda de força, imagina se ele tivesse a perna do Hincapie? Nunca teria saído lugar… ehehe.
    Aguardo segunda capítulo amanhã, ansiosamente.

  16. Renato disse:

    Cara, sensacional. O mais impressionante é o respeito pelo rival, coisa que não vemos mais por aí.

  17. Jack disse:

    Que matéria!

    Parabéns Zaka!

  18. Guilherme disse:

    Maravilha de post!!!!!!!!!!!!!!!!

    Queria ver aquela foto em que eles trocam uma garrafa de água em alta montanha, mas depois discutem quem ajudou quem…

    Quebra mais esse pra gente Zaka.

    Parabéns pelo Blog, sou viciado nele.

  19. Bortolin disse:

    Parabéns pela matéria!

  20. Tulio disse:

    Poutz!! Só agora consegui ler completamente o texto…fantástico!!! Dá uma vaga idéia do que realmente significa ser um ciclista verdadeiro! O “L”ance da veia foi com certeza o mais sensacional que já li em qquer história esportiva, hehehehe! Vai ver se algum cara hje em dia está preocupado com este tipo de detalhe…São histórias do tempo em que tudo era um pouco mais lento, talvez por isso, tudo tivesse muito mais emoção, como retratam estes textos.

    Abraços

  21. Gabriel Vargas disse:

    Que história! E que rivalidade mais bonita!