Coppi e Eu – Final

20/novembro/2009

Essa é a primeira vez que eu conto essas histórias a alguém. Acredite em mim, não é porque eu quero criar um escândalo. Não pode haver nenhum escândalo entre Fausto, eu e minhas lembranças. Mas você de saber alguma coisa sobre o que realmente aconteceu para poder apreciar plenamente o que o público viu, as declarações erradas, as explicações, explosões, nossas disputas e todos os episódios que fizeram de Fausto um corredor único, apaixonando milhões de fãs.

Quando Fausto foi contratado pela minha equipe [Legnano] para a temporada de 1940, parecia ser nada mais do que um menino franzino. Eu tinha esmagado sua mão quando ele ganhou o Campeonato Italiano Independente [categoria intermediária entre amadores e profissionais] no ano anterior. Mas, honestamente, se você tivesse perguntado se eu vi um futuro Superman eu teria dito “Não”. Mesmo depois de ter vencido o Giro 1940 eu não estava totalmente convencido. Eu tinha sido o líder até cair.

Não foi até o Giro d’Emilia de 1942 que eu percebi que ele era especial. Na noite anterior à corrida, ele perguntou se poderia escapar no início da prova, pois estava se sentindo um pouco doente e não estava em boa forma. Escapar era o melhor que ele podia fazer com seus recursos limitados. Eu lhe disse que não via qualquer problema nisso. Mas vem a corrida e a coisa muda. Ele escapou cedo, como planejado, mas quando chegou a hora da perseguição, não conseguimos fazer nada. Depois da corrida foi até o seu quarto. Me desculpem pelo que eu disse, mas estava furioso.

“Então, você não está em boa forma?” perguntei.

“Mas ninguém veio atrás de mim”, respondeu calmamente.

“Se você estava tão doente, deveria ter abandonado”.

“Mas não estava doente. A corrida me fez bem”.

“Obrigado pela explicação”.

Na saída vi um mapa da corrida bem desenhado por Fausto. Esses mapas de corrida normalmente não são entregues aos corredores nos dias de corrida. Apanhei-o. “Então, o que é isso?”.

“Esse é o mapa do trajeto” ele respondeu.

“Se você estava doente, por quê precisava de um mapa para encontrar o caminho da corrida?”

“Eu fiz o desenho antes de ficar doente.”

“Você deveria ter me dito que a corrida é um remédio contra os males.”

“Se eu me perdesse, a equipe não me encontraria.”

Sua lógica foi impecável. Mas foi ele que ganhou no meu lugar. Esse foi o dia em que finalmente entendi o perigo representado por Coppi. Vendo como não tinha desistido, eu pedi a toda a equipe para perseguir e me juntei a eles. Além de não conseguirmos alcançá-lo, nós não conseguimos ficar onde estávamos. No final, perdemos mais 7 minutos. “Tenha cuidado Gino”, disse a mim mesmo na escuridão do meu quarto, “Esse garoto é especial. Cuidado! Ele é perigoso!”.

Eu não estava enganado.

Vou lhe contar mais histórias e detalhes da nossa rivalidade. Mas não foi sempre assim, especialmente porquê eu era mais velho. Em 1955 eu tinha me aposentado e estava acompanhando o Giro como repórter de televisão. Logo no início de uma fase tranquila, perto de Veneza, ele me viu e me chamou para o pelotão. Ele ergueu uma imagem.

“Gino, olha isso!”

Eu vi a imagem de um bebê lindo. “Quem é ele?” perguntei.

“Esse é o meu filho!!” Gritou e continuou a pedalar.

Ficou tão feliz que praticamente se transformou. Peguei a foto e disse: “Vou mostrar a todos.”

“Não, Gino, espere, espere!”

Muito tarde. Meu carro já estava passando pelo pelotão, e segurando a imagem para cima para que todos vissem, eu gritei, “Olhem isso, esse é Faustino, novo filho do Fausto!”. Por 4 ou 5Km Fausto me perseguiu, gritando para que eu devolvesse a foto. Então ele desistiu da perseguição. Após isso, o pelotão inteiro parou para cumprimentá-lo na grama ao lado da estrada. Eu estava tão feliz como ele. Todos estava felizes. Mesmo retomando a corrida, ninguém atacou. O maior campeão de todos os tempos teve um filho.

Quem sabe o que poderia ter acontecido sem a 2a. Guerra? Para eles, a retomada da rivalidade foi como se o último episódio tivesse sido ontem. Na noite anterior a Milan-San Remo de 1947, Bartali estava lutando contra um frio miserável.

Sentia-me incapaz de vencer a corrida, mas se eu não pudesse ganhar, certamente não queria que Fausto vencesse. Mas como detê-lo? Fui dar um passeio à noite, ainda pensando em como impedir o meu rival. Não tinha ido longe quando encontrei Serse e outro companheiro fiel de Coppi, Casola.

Nos cumprimentamos, e, para minha surpresa, perguntaram se eu gostaria de ir ao cinema com eles. Meu primeiro pensamento foi que eu não gostava de western, mas num piscar de olhos eu percebi que isso poderia ser a resposta às minhas orações. Se eu pudesse manter os dois companheiros de Fausto acordados até bastante tarde, ele seria privado da sua ajuda na corrida de amanhã. Então rapidamente concordei e fomos ao cinema.

Saímos à meia-noite e Casola perguntou se eu pretendia ir direto ao hotel. “Estou morrendo de fome”, confessou. “E conheço um ótimo restaurante aqui perto”. Isso era muito bom para ser verdade. Concordei em ir com eles. Durante todo o tempo, é claro, Fausto dormia o sono dos puros. Duas horas depois só restavam pratos vazios de tortellini e garrafas secas de vinho branco. Então fumamos vários cigarros sob o olhar estupefato de outros clientes que não acreditavam que, na véspera da corrida mais importante da Itália, nós, os personagens principais quebrávamos todas as regras conhecidas do regime do ciclismo.

Finalmente saímos do restaurante. Dei boa noite aos dois e fui para o hotel. A corrida começaria em menos de seis horas. Ao passar pelo quarto de Fausto, coloquei o ouvido na porta e pude ouvir sua respiração tranquila.

Mal deitei e já precise acordar, com um pouco de ressaca. No início da prova fiquei contente ao ver Serse e Casola com o mesmo olhar. A corrida começou tranquila, como sempre, mas perto do primeiro obstáculo, a passagem pelo Turchino um galho entrou na minha roda e quebrei 8 raios! Isso não passou despercebido por Fausto que aumentou o ritmo. Após fazer o conserto, saí em perseguição como um louco e senti o prazer de pegar a roda de Coppi. Talvez aqueles tortellini não fossem tão ruins para mim afinal! E pensei comigo mesmo: “Se você pode pegar Fausto quando ele atacou, talvez não esteja tão fraco como pensava. Dane-se!” Vencemos, o tortellini e eu!

No ano seguinte [1948] venci meu segundo Tour de France. Apesar de Fausto não estar presente, com a vitória minha reputação só melhorou. Coppi não ficou nada satisfeito. As coisas vieram à tona no Mundial de Estrada em Valkenburg [Holanda]. Nós dois queríamos vencer e nós dois não queríamos que o outro vencesse.

No momento crítico da corrida houve a quebra decisiva e nenhum de nós se mexeu. Ficamos rodando, lado-a-lado e eu lhe disse: “Olha Fausto, você não vá esperar que eu trabalhe como seu gregário. Você deixou todo mundo fugir e quer que eu vá perseguí-los enquanto vai na minha roda. Se você puder, vá atrás deles, eu vou parar”.

Fausto respondeu asperamente: “Eu só quero fazer uma coisa, ir para o hotel”.

“Muito bem. Você vai para o hotel, eu vou atrás deles”.

“Se você vai atrás deles, eu vou com você”.

Ele virou o rosto, não permitindo qualquer resposta. Compreendi então que Fausto só correu para me fazer perder. Na volta seguinte, quando o grupo passou na frente do hotel, eu coloquei meu pé no chão e abandonei a corrida. Não consegui chegar ao quarto, logo fui atacado pela imprensa e membros da delegação italiana. Enquanto dava explicações, vi Fausto passar tranquilamente por trás, despistando todo mundo e entrando no seu quarto. Vendo Fausto de fora, eu tentei voltar para o lado de fora e retomar a corrida, mas era tarde demais: vi os líderes passarem com uma volta restando.

Em Milano, alguns dias depois, o público nos vaiou. Como você pode ver, essa rivalidade colocou a mim e a Coppi em situação difícil. Fomos, de certa forma, incentivados a fazer coisas que nenhum de nós realmente queria fazer. E não apenas naquele momento. Você acha que eu teria corrido até os 40 enquanto Fausto era mais forte? Para nós dois, os outros não contavam. Meu único adversário era ele e vice-versa.

Éramos, no fundo, duas crianças grandes, tímidos, filhos de camponeses modestos que lutaram para o louvor de nossos compatriotas. Ocasionalmente, Fausto se referia a mim na terceira pessoa como o Senhor Bartali, um sinal na nossa língua da maior deferência possível.

Mas nas bicicletas era outra coisa. Nesse mesmo ano, 1948, Fausto anunciou que queria vencer o Giro di Toscana. Imagine! Ele queria me bater no meu território, na frente de todos os meus amigos e apoiadores! Que presunção! Ele queria me humilhar no meu território!

Para essa corrida eu treinei como nunca. Para Fausto não notar, treinei durante a noite e minha mulher andava com o carro atrás de mim para iluminar o caminho. Ele já havia vencido uma vez nessa corrida em 1941. Nunca mais! Eu trabalhei na minha escalada, eu trabalhei no meu sprint, nada pode ser esquecido!

Na corrida, Fausto foi logo ao ataque, mas eu estava sempre com ele antes que ele pudesse respirar uma segunda vez. Eu temia que minha defesa agressiva o forçaria a encontrar uma maneira de me fazer perder, ao invés de ele ganhar. Depois de 180Km de corrida alguns corredores tinham escapado. Fui até Fausto e lhe perguntei: “O que me diz, vamos atrás deles?”

Ele respondeu: “Claro, vamos.”

Fiquei aliviado. Quando Fausto e eu estávamos de acordo, ninguém no mundo poderia ficar com a gente. Pouco tempo depois pegamos os fugitivos e quando estávamos com uma vantagem de dois minutos Fausto furou um pneu. Eu pedalei com cuidado para que ele me alcancasse. Ele furou uma segunda vez, e eu repeti. Não queria que ele pudesse dizer que eu tinha batido ele por causa da sua má sorte. Ao terminar em Florença, eu era o verdadeiro vencedor.

Naquela noite, depois do jantar, Fausto veio à minha casa com uma foto sua como presente para meu filho Andrea. Fausto tinha escrito na foto: “Para Andrea Bartali, filho de meu grande adversário com a esperança de encontrá-lo novamente durante os próximos quando eu correr contra seu leal pai nas estradas esportivas do mundo”.

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O caso Rebellin

20/novembro/2009

O CONI notificou ontem o corredor a respeito das determinações do COI:

  • devolver a medalha
  • devolver o diploma
  • devolver os 75.000 euros

Além disso o jurídico da entidade foi orientado a entrar com uma ação contra o corredor por danos que o comportamento do batoteiro causou a Itália, ao CONI e ao esporte nacional.


Contador permanece na Astana

20/novembro/2009

O espanhol assinou um pré-acordo com a equipe para permanecer por um ano mais defendendo as suas cores:

  • que a equipe conserve a licença ProTour
  • que a equipe mantenha um controle anti-dopagem interno e eficiente
  • que a equipe cumpra o código ético
  • que a equipe cumpra outras coisas não divulgadas

Hoje (20 de novembro) é a data limite para aquelas equipes que não haviam cumprido com os requisitos da UCI apresentem a documentação e o dinheiro e a Astana é uma daquelas que está na alça de mira.

Caso algum dos itens não seja cumprido, o corredor fica livre para procurar outro time.


Uniformes bonitões – bônus extra

20/novembro/2009

Esse é HC, não tem pra ninguém.

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Ao contrário do que se pensa, Tom Boonen não foi o precursor da galinhagem da bermuda da mesma cor da camisa no Tour: a façanha pertence a Mario Cipollini no Tour de 1999.

Cipollini e suas esquadras foram multados várias vezes por desrespeitar o regulamento da UCI com os uniformes bonitões. No entanto, a venda de apenas um, aquele dos músculos, durante um leilão rendeu a quantia de US$ 43.710,00 – cerca de 100 vezes o valor das multas.