O clã Anquetil

05/dezembro/2009

Em 18 de novembro de 1987 Jacques Anquetil abandonou sua corrida contra a morte. Vencido pelo câncer, jogou a toalha.

Anquetil estava prestes a completar 54 anos e fiel a sua lenda, despedia-se da vida com a mesma fina ironia de sempre, a visão aguda e penetrante que a acompanhou ao longo da sua carreira. Poucas horas antes de morrer, diria a André Boucher, seu primeiro mentor, seu segundo pai: “Lembra André, lhe disse que jamais morreria de um câncer? E eu estava certo. Tenho dois.”

O normando Jacques Anquetil, Maître Jacques, Monsieur Crono, nasceu em Mont Saint Aiquan em 8 de janeiro de 1934. Filho de agricultores, com a permissão de seu pai, filiou-se a um grupo amador em 1952 com a condição de que ganhasse dinheiro fazendo o que gostava. Apesar de sua juventude, surpreendeu a todos ganhado seu primeiro campeonato francês de contrarrelógio, categoria amador quando ainda não tinha 18 anos. Foi profissional de 1954 a 1967 e já no primeiro ano ganhou o Grande Prêmio das Nações (contrarrelógio) considerado na época o mundial da modalidade com mais de 6 minutos sobre o segundo.

Treinava pouco, não cuidava da alimentação e era fã de vinhos e champanha. Mesmo assim seus êxitos vieram rapidamente: em 1956 estabeleceu o recorde da hora (46,159Km).

Destacou-se com contrarrelogista devido a sua figura aerodinâmica e seu pedalar perfeito. Era também conhecido pela inteligência com que corria, aproveitando o máximo sua capacidade. Unido a sua elegância sobre a bicicleta, onde nunca perdia a compostura. Mantendo sempre uma posição impecável não deixava demonstrar aos seus adversários os maus momentos que com certeza passava.

Foi o primeiro corredor a conseguir cinco vitórias no Tour, foi o primeiro francês a vencer o Giro (60 e 64) e um dos poucos a conseguir a dobradinha Tour-Giro e Tour-Vuelta.

A fraqueza de Anquetil na subida a Envalira (descrita no post O Calvário de Anquetil e Poulidor) foi creditada por muitos anos a um banquete na noite anterior, posteriormente desmentida. Mas o fato é que, Anquetil passou para a história tanto por sua hegemonia na bicicleta como por sua vida desordenada. Como descrito na sua biografia, Anquetil era capaz de abrir ostras sem apoiar os braços na mesa. Seu lema era: “para ser bom na bicicleta tem que ser bom na mesa e alegre na vida”.

Sua vida confusa é confirmada pela história: em 1954, aos 20 anos de idade era uma estrela consagrada. A amizade com seu médico pessoal era muito grande, passava muitos finais de semana na sua casa com a família toda. Anquetil “roubou” (ou casou) a esposa do médico, Nanou.

Os filhos do médico (Annie com 8 anos e Alain com 6) acompanharam a mãe. Depois de mais de uma década instalados no castelo onde Anquetil morava ele decide ter seus próprios filhos. No entanto, Nanou havia feito ligadura de trompas. Qual a solução? A solução se chama Annie, a filha da mulher a quem conhece e cria desde os 8 anos de idade. Com o consentimento da mãe e concordância de Annie, eles tem uma filha chamada Sophie. Sob os olhos da lei, Sophie é filha e neta de Anquetil.

Como uma vez só é pouco, Anquetil continua compartilhando a cama entre mãe e filha por quase doze anos. Farta dessa história, Annie tenta abandonar Anquetil que a ameaça com uma troca por outra moça: Dominique.

Para complicar ainda mais a situação, Dominique não é ninguém menos do que noiva de Alain, o filho de Nanou, que Anquetil cria desde os seis anos de idade.

Desse relacionamento nasce Cristophe, filho e neto de Anquetil, irmão e primo de Sophie. Nesse tempo, Annie desistiu de abandonar o relacionamento e Anquetil fazia uma “revezamento” no seu harém.

E assim vivia o clã Anquetil: todas por um e um por todas.

Para saber mais: Sex, Lies and Handeblar Tape: The Remarkable Life of Jacques Anquetil, the First Five-times Winner of the Tour de France.

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