Subir como um texugo

Na fábula infantil “O Vento nos Salgueiros” o personagem Sr. Texugo é um companheiro rude, anti-social e solitário, embora generoso e quase paternal no tratamento com seus amigos.

Já na versão ciclista, o Texugo (Badger ou Le Blaireau) Bernard Hinault não era muito diferente. “Eu vou ser o texugo para sempre”, escreveu após sua aposentadoria. “Isso não me incomoda”, explicando o porquê do seu apelido.

Muito pouco se sabe sobre texugos, mas o que as pessoas sabem ainda menos é sobre sua ferocidade. “Enquanto viver e respirar, atacarei”, disse Hinault (abaixo o vídeo da chegada da Paris-Roubaix 1981: ele ataca durante toda a volta no velódromo, não se esconde para sprintar nos últimos metros).

Fiel a sua palavra, Hinault era um corredor agressivo. Atacou implacavelmente seus adversários, atacou seus companheiros (Lemond, 1986) atacou fora da bicicleta: certa vez brigou com manifestantes que bloqueavam a estrada durante uma Paris-Nice e continua atacando com embaixador do Tour de France quando manifestantes tentam invadir o pódio.

Hinault foi o último dos grandes de antigamente que disputavam (e venciam) mais de uma grande no mesmo ano, além de clássicas e provas menores. Ganhou o Tour cinco vezes (com 28 vitórias de etapas, atrás apenas de Eddy Merckx com 34) e o Giro três vezes, duas delas no mesmo ano que o Tour. Venceu duas Vuelta, o Critérium du Dauphiné Libéré três vezes, algumas clássicas de primavera (incluindo a Paris-Roubaix).

Ele mostrou seu lado texugo transformando-se rapidamente no patrão do Tour com um estilo nunca visto. No seu primeiro Tour em 1978 (com 23 anos e maillot de campeão francês) ele tomou o microfone do prefeito de Valence d’Agen durante um protesto: “O Senhor Prefeito está falando com vocês, calem a boca e ouçam. Vocês podem reclamar mais tarde”. Teve que fazer uma pausa no entanto para “resolver” um problema com alguns manifestantes que estavam jogando tomates nos ciclistas.

Tanto quanto possível ditou os termos nas provas por etapas, controlando os ataques nos dias em que o pelotão estava cansado, simplesmente perseguindo-os e falando com tom de repreensão.

Sua personalidade dominante era uma figura polêmica entre o público francês. Nos seus primeiros anos de dominação geraram um sentimento de mágoa e ele criou uma reputação de ser um ciclista arrogante. O jornal L’Equipe escreveu em 1982: “Aos olhos do público, ele é um grande campeão, mas um pequeno homem”. Hinault simplesmente encolheu os ombros e retrucou “Eu não consigo entender como um ciclista não pode ter essa característica, todos os vencedores tem….”.

Não era um escalador puro, mas como todos os grandes campeões, seu poder global demonstrado no contrarrelógio era traduzido para uma presença temível nas montanhas. Como outro grande campeão, Eddy Merckx, era meticuloso na afinação da sua bicicleta e isso contribuiu para a melhoria nessa especialidade.

Sua posição de pedalar foi modificada após o Tour de 1978 por Cyrille Guimard após pesquisas ergonômicas e testes no túnel de vento da Renault. A principal alteração foi um alongamento do top-tube em 2cm, passando para um total de 56,5cm.

A intenção era levar Hinault que media 1,73m mais para trás, mas também mais para cima. A posição do seu selim foi elevado de 72,8cm para 73,5cm (gradualmente ao longo de um período de 3 anos – 1979 a 1982 – para não pressionar muito seus joelhos). Infelizmente, durante a Vuelta de 1983 o selim foi acidentalmente fixado em 74cm agravando a tensão no joelho direito que já era problemático e havia deixado-o de fora do Tour após uma cirurgia.

O objetivo da nova posição de pilotagem era permitir uma melhor escalada sentado. Ele tinha a fama de usar marchas pesadas ao escalar, muitas vezes de pé e por longos períodos. Alguns atribuiram isso como a causa dos seus problemas nos joelhos.

Essa sempre foi uma questão sensível para Hinault. Tinha uma cadência suave, mas “sempre escolho as marchas de acordo com a cadência ideal de pedalada para mim – se eu pedalar muito rápido, meus músculos não respondem bem”. Para ele a cadência ideal era entre 70 e 90 RPM.

Uma grande relação para grandes voltas começou a entrar em moda a partir dos anos 50. Fausto Coppi em 1946 teria usado uma 51×15 e Louison Bobet 52×14. Para escaladores uma coroa menor era a regra, mas mesmo assim maiores do que as atuais. Eddy Merckx, por exemplo, era um fã das coroas 53-44 com um câmbio de 6 velocidades de 13-19; em etapas de montanha ele optava por uma engrenagem 13-21.

Por muito tempo Hinault usou uma pedivela 53-42 com 7 velocidades. Ele evoluiu de uma “primeirinha”  42-22 para 42-24 (120,14cm contra 116,3cm da atual e popular relação 39×23). Mudou sua técnica de escalada para se concentrar mais em pedalar sentado. Como disse: “Sento-me mais para trás e pedalo mais suavemente”. E se hoje usamos pedais de encaixe com sapatilhas, devemos esse favor à Look e a Bernard Hinault que foi a cobaia nesse equipamento.

Como sua posição de pedalar e de pedalar evoluiram, afirmou que não mudava de posição durante a subida, exceto para estender os braços o máximo possível e respirar melhor, deixando as mãos sobre os freios e sempre que possível mais próximo do centro. Ficar solto e relaxado também foi importante para o estilo de Hinault. “Ombros, braços e mãos relaxados são muito importantes. Você tem que aprender quando está tenso”.

Mesmo pedalando muito mais tempo sentado do que antes, considerava que os momentos de esforço fora do selim eram úteis para atacar ou trabalhar músculos diferentes eliminando o ácido láctico. Mesmo assim, afirmou que esses momentos deveriam ser minimizados devido às exigências de aumento de energia e trabalhou a técnica correta: “Quando você está fora do selim, deve evitar mover o seu corpo em todas as direções, do contrário perde força. Nesses momentos, tento ficar o mais relaxado possível, são as pernas que devem trabalhar”.

Sobre os momentos certos de atacar, foi dispersivo e não contou seus segredos, mesmo no seu livro “Road Racing: Technique & Training”: “Se você perceber que um adversário perigoso tem o olhar cansado e se o terreno é favorável, pode ser útil atacar”. Segundo ele, às vezes era necessário atacar no plano ou em subidas, com companheiros ou sozinho. O ataque era importante para combater, para blefas ou para forçar o ritmo eliminando alguns corredores. “Eu raramente tenho um plano, decido de acordo com as circunstâncias”.

Mas como dito, muito pouco se sabe sobre o Texugo.

8 respostas para Subir como um texugo

  1. Fernando Blanco disse:

    Parabéns, Zaka, o B.Hinault merecia uma mini bio como essa! Se fosse italiano seria nome de avenida, parque e cidade, porque lá eles idolatram seus campeões. Já a complexida França prefere os vice-campeões, daí o fato dele ser considerado arrogante pelos seus próprios compatriotas.

    Alguns grandes momentos de Hinault:
    1. Champs Elisee 1979: vestido de amarelo, fugiu com Zoetemelk (segundo do Tour, em verde), e ganhou a última etapa. Feito único.
    2. Champs Elisee 1982: de novo de amarelo, ganhou o sprint do pelotão, com todos os sprinters sofrendo na roda dele. Outro feito único.
    3. Tours 80/81 e 84/85: ele abandonou o Tour de 80 (joelho…) e apanhou feio em 84, do Laurent Fignon (+ de 10 min.), após a cirurgia que fez no joelho. Orgulhoso, como bom ‘blaireau breton’, ele deu show nos Tours seguintes ao insucesso: em 81, meteu 14 min no segundo colocado (Van Impe) e em 85 trucidou o pelotão, com Lemond em 2o., vencendo seu 5o. Tour!
    4. A la Merckx, venceu muitos clássicos: 3 Lombardia, 2 Liege, 1 Paris-Roubaix, 1 Fleche Wallone, 1 Amstel e foi Campeão Mundial (1980).
    Chapeau, Monsieur Hinault!
    Abrs,
    Fernando
    PS: foi muito mais ciclista do que Lance Armstrong, que tem seu mega valor por conta do câncer, mas no pedal Hinault fez muito mais.

  2. Zeca Blak disse:

    Excelente post!!! Valeu, Zaka!
    Só não tô visualizando os links pro youtube.

  3. Gabriel Sousa disse:

    Portentosa a carreira dele.
    Não conhecia quase nada além de ter ganho 5 Tours.

  4. Lobo disse:

    Belíssimo post. Eu li o livro que ele escreveu em parceria com o Claude Genzling – Road Racing. O meu livro é em inglês, mas tem uma versão em “português de portugal” que eu só descobri depois😦
    Apenas para ilustrar, ele venceu a etapa da Vuelta em 83 quando o selim foi ajustado de forma errada (ôôô bicho “injuado” esse tal de texugo hein hehehehehe).

    Congratulazioni Zaka!

  5. José Carlos SBC/SP disse:

    Valeu Zaka!!
    Como da prazer em ler essas histórias.
    Foi se o tempo que “ESSES CARAS” colocavam o calendário na parede e iam disputando as provas, não se importando se era o Giro, o Tour, a Vuelta, as Classicas ou qualquer outra prova que tinha por aí. Olha o calendário do Contador, do Armstrong, é o Tour e algumas classicas para manter a forma. Antes todas as feras estavam na mesma prova, daí podemos ver como engrandece mais ainda a carreira do Hinault, Merckx e outros. Posso estar falando besteira, mas duvido algum ciclista hoje, ganhar mais de 30 provas no ano.

  6. Paulo disse:

    O livro em Português é o “Ciclismo de Estrada” e foi publicado pela Editorial Presença, pode ajudar os interessados a conseguir uma cópia.

  7. Zeca Blak disse:

    Valeu,Zaka
    Links a vista.