Miguel Poblet

Miguel Poblet (18-03-1928) foi um Óscar Freire dos anos 50. Era uma época de glamour dos escaladores, de Bahamontes, Bernardo Ruiz, senhores do Tour. Fugas históricas e heróicas. Ciclistas pobres que vinham da miséria e viam no esporte a oportunidade de conhecer o mundo, lograr a fome, de conhecer bicicletas e seus componentes.

Miguel Poblet era de outro mundo, um sprinter. Seu mundo era dos Rik Van Steenbergen, o primeiro, Van Looy, o segundo, de André Darrigade. Poblet era o Divino Calvo, sua cabeça coberta com um capacete de couro bem polido. Correu por uma equipe italiana, a Ignis (fábrica de geladeiras) e ganhou sobretudo corridas na Itália. Ganhou etapas no Giro, sprints e até uma etapa no Monte Bondone naquele dia que Charly Gaul parou para tirar água do joelho e perdeu a prova.

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Milan-San Remo 1959 e a ONE ARMED SALUTE

Poblet ganhou duas vezes a Classicissima: 1957 e 1959 (primeiro espanhol a conseguir a façanha). Não era um sprinter que precisava de um trem lançador como Van Looy e as balas vermelhas da Faema. Estava sempre na roda dos mais rápidos e nos últimos metros saltava, imbatível, com as mãos bem baixas, peito sobre o guidão e levemente levantado, quase encostado no selim. Preferiu correr na Itália, pois a Espanha da época não tinha nenhuma equipe acostumada a puxar o pelotão e trabalhar no plano.

Contou numa entrevista muitos anos depois: “No Giro, o maillot era de lã. Para se refrescar ganhava um cubo de gelo. Hoje se corre com vinte velocidades, antes com dez ou doze, não há comparação. Tampouco o dinheiro: aos 40 anos de idade meu salário era de 40 mil pesetas (240 euros) ao mês mais os prêmios. Ganhar uma prova dava 100 mil pesetas (600 euros), mas como é regra repartir o prêmio com a equipe, levava 10 por cento. O material era por nossa conta: um tubular custava 350 pesetas (2,10 euros). O melhor me aconteceu na Milan-San Remo: Giovanni Borghi, commendatore da Ignis me deu seu carro, um Lancia. Ele chegou e me perguntou: Gosta? Disse que sim e ele me deu as chaves”.

Sua segunda vitória na Classicissima teve outra história: a equipe Ignis não ia correr a prova e fizeram a proposta a Poblet que corresse com a Faema, equipe de Van Looy: “ele me vetou, não me via como um gregário, mas como um perigo. No final me permitiram participar como avulso, já que a organização permitia um certo número de corredores nessa condição”. Van Looy estava certo: Poblet ganhou e ele fez segundo.

Poblet correu três vezes no Tour (ganhou 3 etapas) e seis no Giro (com 22 vitórias). Seu currículo se completa com 62 vitórias: além das já citadas uma Milan-Turin, uma Midi-Libre, duas Vuelta a Cataluña, os Seis Dias de Barcelona, Madrid, Buenos Aires, Casablanca. Foi o primeiro espanhol a ganhar etapas nas três grandes.

Nos Dolomitas ele foi protagonista de uma cena no mínimo curiosa. Na época em que a corrida ainda era disputada em estradas de terra, faltavam três quilômetros para a meta e o carro da equipe ficou sem água no radiador. O motorista viu uma fonte de água e parou para completar o nível. Pensaram que com o pouco que faltava ele não teria nenhum problema, mas ele furou um pneu. Ia ganhar a etapa, ficou desesperado, gritando, acenando. A foto tirada por Alguersuari reflete o nervosismo do momento: levantou a roda e gritou que era a traseira, pois o motorista vinha correndo com a dianteira.

No final perdeu, ele, um sprinter, a chance de ganhar uma etapa de montanha e passou de segundo a quarto no Giro de 1958.

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Apesar de ganhar inúmeras etapas planas, ele não era um sprinter puro. Era um meio-fundista ao estilo de Alejandro Valverde ou Cadel Evans: chegou a ser campeão espanhol de montanha em três oportunidades.

5 respostas para Miguel Poblet

  1. Gerson disse:

    Bela história Zaka, esse ciclista eu não conhecia.
    Sempre aprendendo muito no seu blog.
    Um ciclista q sou fã também é o Mario Confente, não foi muito vitorioso, mas como framebuilder na minha opinião bateu até o Colnago e De Rosa.

    Abraço.

  2. Lobo disse:

    Eu sabia muito pouco dele. Diversão pura esses perfis. Muito bom mesmo.

  3. Anderson disse:

    Que foto essa segunda hein.

  4. […] This post was mentioned on Twitter by Bicicleta na Rua, Marcelo Guazzelli. Marcelo Guazzelli said: Miguel Poblet: http://wp.me/p5iKS-2WO […]

  5. Fernando Blanco disse:

    Parabéns Zaka, por mais este registro histórico de qualidade! Vale destacar que mesmo passados 50 anos a Espanha não muda! Caras como Freire e Flecha, que focam em Clássicas, precisam de refúgio em equipes estrangeiras, pois na Espanha não são reconhecidos ou valorizados.

    Abs, F.