José Meiffret

José Meiffret (1913-1983) foi um ciclista que estabeleceu um recorde mundial de velocidade sobre bicicleta em 16 de julho de 1962, na cidade de Freiburg, Alemanha: 204,73Km/h.

O recorde foi alcançado no vácuo de um automóvel (Mercedes 300SL) movendo um pratinho de 130 dentes e rodas de madeira (não existia carbono).

Reprodução de um texto publicado em 1965 escrito por Clifford Graves.

Um grupo de pessoas nervosas se acotovelada ao longo da autoestrada próxima a cidade alemã de Freiburg em julho de 1962.

Herr Heinemann havia medido minuciosamente o quilômetro inicial. Meia dúzia de cronometristas da associação internacional revisavam seus equipamentos elétricos. O capitão Dalicampt, das forças de ocupação francesas distribuiu seus homens em pontos estratégicos ao longo da rodovia. Adolfo Zimber limpou a sujeira invisível do pára-brisa de seu Mercedes. Os repórteres faziam perguntas, faziam apontamentos. José Meiffret estava a ponto de começar seu jogo com a morte.

De todos, Meiffret era o menos nervoso. Um francês pequeno com olhar melancólico e expressão preocupada. Sua bicicleta ao lado, um prato monstruoso de 130 dentes com um pinhão de 15. As rodas eram de madeira para prevenir descolamentos. Os pneus muito gastos eram tubulares. O quadro, reforçado em todos os pontos críticos.

Durante este dia, neste lugar, sobre esta bicicleta, José Meiffret trataria de alcançar a velocidade fantástica de 200 Km/h. Meiffret ajustou o capacete, montou na bicicleta e apertou os firma-pés. Começar a mover semelhante relação era uma odisséia e ele teve ajuda de uma motocicleta. A 30 Km/h Meiffret lutava para ter controle. Suas pernas apenas se moviam. A 60 Km/h começou a rodar em passo firme. A 75 Km/h a Mercedes com a parte final do teto especialmente preparada posicionou-se atrás dele. Com um empurrão de sua mão, Meiffret dispensou a motocicleta e se uniu a parte traseira da Mercedes. Escapou do primeiro risco.

Rapidamente a estranha combinação homem e máquina estava unida. E o risco de morte o acompanhava. A parte final do carro possuia uma pequena roda, mas se ele a tocasse, adeus. De outro lado, se ele ficasse para trás, a mais de 50cm, a turbulência faria picadinho dele. Se o carro sacudisse, ele estaria em perigo mortal. Um engenheiro havia lhe advertido que, nestas velocidades, a força centrífuga poderia fazer com que suas frágeis rodas evaporassem. Não assustado com as perspectivas, Meiffret foi a fundo na sua tarefa.

Agora rodava a 120 Km/h. As notícias da tentativa heróica haviam se espalhado e o caminho estava cheio de espectadores. Quase todos esperavam que algo terrível acontecesse. Herr Thiergarten sinalizou do carro a velocidade, mediante sinais previamente combinados. Meiffret estava conectado por um microfone com o piloto. “Allez, allez”, gritou ele, sabendo que só restavam 14Km para acelerar e desacelerar. O velocímetro mostrou 140 Km/h. O que aconteceria com ele se passasse por uma sujeira, uma mancha de óleo ou uma rajada de vento? Por diante, uma ponte e um grupo de árvores. As perspectivas eram ruins.

No seu bolso, Meiffret levava um bilhete: “Em caso de acidente fatal, peço que todos os espectadores não tenham pena de mim. Sou um homem pobre, um órfão desde os onze e sofri muito. A morte não põe medo em mim. Essa tentativa de recorde é meu modo de me expressar. Se os médicos não puderem fazer nada por mim, por favor me enterrem junto ao caminho onde caí”.

Mas, quem era Meiffret, um homem que além de pedalar uma bicicleta nessa velocidade ainda via a si mesmo tão desapaixonado?

Nasceu em 1913 em Boulouris, Côte d’Azur. Ficou órfão com a idade de 11 anos e teve que se virar soziho. Um dia, voltando para casa sobre sua velha bicicleta, foi derrubado por um automóvel. Ficou muito ferido e sua bicicleta em pedaços. O condutor lhe ofereceu uma nova bicicleta. O resultado é que ela era maravilhosa e em pouco tempo, virou a sua vida. Quando não pedalava, lia. Entre a bicicleta e os livros foi nascendo uma ambição: algum dia iria assombrar o mundo.

Sua primeira corrida foi um fiasco. Com pouca preparação, correu uma prova de 190Km pelas montanhas e “pingou” rapidamente. Seus adversários riram dele, e um médico disse-lhe que tinha um coração fraco e não deveria correr. Nessa noite chorou antes de dormir.

O homem que mudou sua carreira foi Henry Desgrange, o fundador do Tour de France. Desgrange lhe disse: “tente correr atrás de uma moto, poderá se surpreender”.

Nota: correr na roda de uma moto era uma modalidade disputada em duplas: uma motocicleta e um ciclista.

José lhe deu ouvidos. Com medo e agitação entrou em uma corrida atrás de uma moto entre Agradable e Cannes. Sem nenhum treinamento se sentiu cômodo na disciplina. Rodando suavemente e com elegância, em perfeita harmonia com o seu motociclista, terminou na primeira posição. As pessoas enlouqueceram.

Animado pelo sucesso, foi acumulando vitórias e recordes de velocidade atrás de uma moto. Havia encontrado seu caminho.

Mas um ciclista não se faz da noite para o dia. Quando José começava a abrir caminho na pista, estourou a guerra. Após 5 anos de cativeiro, seus objetivos de então, pareciam muito distantes. As corridas atrás de moto tinham uma longa história, mas apenas alguns homens haviam obtido sucesso com isso.

O recorde da hora (atrás de uma moto) foi obtido nos anos 30 pelo francês Paillard com 79,44Km. Meiffret obteve o recorde em 1949 com 87,9. Paillard imediatamente tirou o seu título com 96,49Km. Meiffret selecionou um circuito especial na Alemanha. Aclamado por milhares de espectadores, cobriu 104,79Km em uma hora e poderia ter feito mais se sua motocicleta estivesse a altura de suas habilidades.

No seu esforço para melhorar sua posição em 1951, decidiu correr atrás de carros ao invés de motocicletas. Os carros são maiores e mais rápidos. Nesse campo, o homem a bater era Alfred Latourneur, outro francês, expatriado que havia corrido uma milha atrás de um carro na autoestrada de Los Angeles na velocidade de 160Km/h em 1941.

A primeira tentativa de Meiffret foi com um Talbot mas constatou que não poderia passar de 105Km/h. Engenheiros aerodinâmicos comentaram que deveriam mudar o seu párabrisa. Depois de meses de trabalho e angústia, tentou outra vez. Um trecho de 30Km ao sul de Toulouse foi preparado (inclusive o trajeto do presidente francês foi modificado) para a sua tentativa. A primeira delas falhou. Na segunda, perdeu o vácuo e quase foi derrubado pelo vento. Na terceira, bateu o recorde.

Numa tentativa posterior na pista belga de Montlhery ele teve um sério acidente. Os espectadores, horrorizados, o levaram para uma ambulância e os jornais anunciaram sua morte iminente. Nessa noite, os cirurgiões encontraram cinco fraturas de crânio. Incrivelmente Meiffret sobreviveu.

Após um longo período de recuperação durante o qual ele lutou tanto pela sua saúde física quanto mental, se uniu a ordem religiosa dos trapenses em setembro. Durante esse tempo fez melhoras contínuas sobre sua bicicleta, escreveu seu primeiro livro e estabeleceu contato com centenas de pessoas. Conheceu uma nova autoestrada em Lahr, Alemanha, onde poderia obter a permissão para outra tentativa do quilômetro atrás do carro. Quando caiu, em 1961, já tinha 48 anos e estava a 172Km/h. Isso o convenceu de que poderia alcançar 200Km/h.

O Merdedes funcionou impecavelmente. As pessoas não podiam acreditar nos seus olhos. Um carro em pleno voo com a figura de um ciclista imediatamente atrás, girando as pernas, o vento na camisa. “Allez, allez” gritava no microfone. No carro o velocímetro alcançou 150KM/h, 160, 180. Angustiado, Zimber examinou seu espelho. “Como diabos Mainffret consegue se manter ali? Fantástico!”.

As pernas de Meiffret giravam a 3,1 voltas por segundo. Era mais do que um homem sobre uma bicicleta; o super-homem da bicicleta, o mago dos pedais, a águia do asfalto, o poeta do movimento. Ele sabia que deveria suportar o ambiente hostil por 18 segundos. Quando passou pela segunda bandeira, os cronômetros registraram 17,580 segundos, equivalente a 200Km/h.

Meiffret havia vencido a luta contra a morte.

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23 Responses to José Meiffret

  1. Diogo disse:

    isto que eh historia!!!!!!!!!!!!!!!!!!!11

  2. Filipe disse:

    isso q é pé de vela! ehehehe

  3. Pablo disse:

    Caramba!!! Isso é que é história!!!
    Belo feito.

  4. Fernando Blanco disse:

    Bela história! Alguns pontos:

    1. Incrível imaginar que há 48 anos, alguém com ainda mais incríveis 48 anos (a minha idade hoje!) conseguiu realizar tal proeza. Até me animei para voltar a pedalar sério…e atingir uns 60 km/h atrás de uma moto.

    2. Uma vez, 30 anos atrás, no terreno plano da Av.Portuária, em Santos, eu pedalei a 80 km/h no vácuo de uma carreta que transportava um container. Simplesmente não consigo imaginar alguém pedalando acima de 200 Km/h – não havia Cateye ou Polar na época, mas o caminhoneiro que vinha atrás, impressionado com o “feito”, encostou em mim quando eu larguei o vácuo e me contou a velocidade.

    3. Li há uns 10 anos em alguma revista estrangeira, que o novo recorde (se é que não o bateram) é de um belga, que atingiu mais de 250 km/h. Lembro-me das fotos: o cara vinha muito mais embutido dentro da carenagem do que o pobre francês acima. E o recorde foi batido num daqueles desertos de sal do EUA, onde realizam testes de velocidade para carros.

  5. helio disse:

    Que emocionante ! Belo texto , digna e linda história !

    Hélio
    Ciclista master B
    Psicoterapeuta
    Brasília-DF

  6. andre disse:

    tem ideia, pneu de madeira, coroa de 130 dentes, o caistoriara e muito macho. parabens pela historia e mais uma vez muito obrigado por compartilhar, com nos, amantes do cilcismo.

  7. Antonio Dirceu Ribeiro disse:

    Este é o esporte que escolhí e amo, e o maglia nos permite conhece-lo e ama-lo ainda mais, muito obrigado Zaka

  8. jean vaz disse:

    parabens bela h
    istoria

  9. jafo disse:

    O zaka ,só poderia ser aqui no seu blog para eu poder ler uma história maravilhosa como esta parabéns. Por isso que sou fã do maglia rosa.

  10. Sergio Luis Nehring disse:

    Ótima história, como jafo falou, só aqui no Maglia Rosa. Muito bom Zaka.

  11. Zeca Blak disse:

    Sensacional!!! O que mais gostei foi o bilhete em seu bolso. Lindo!
    Valeu, Zaka!

  12. José de Athayde Barboza Ferreira disse:

    Esse BLOG é a razão de eu acessar a Internet, todos os dias. Obrigado por transmitir esses conhecimentos.

  13. Andre Burin disse:

    Ô Zaca! Bela postagem!
    Não entendi o porque do garfo com angulo de caster negativo. Nunca vi nada igual, a não ser quando criança, andar assim, com o garfo ao contrário.
    Sabes de alguma razão para tal?

  14. Cachorrão disse:

    Muito boa história Zaka,você é o cara.

  15. Zaka disse:

    Andre: o caster negativo…. também não sei o motivo e não encontrei referências a esse detalhe. Mas pelo visto ele já pensava numa posição “superman” anos antes do seu inventor.

  16. Emilio Salum Filho disse:

    zaka onde vc pegou essa historia..?queria ler mais

  17. Antonio Carlos Alves disse:

    O garfo com angulo de caster negativo ou garfo invertido era usado nas provas de velódromo atrás de moto, com isso o ciclista aproveitava mais o vácuo

  18. Vinícius disse:

    Sensacional. E teu texto, nota dez. Parabéns, garoto! Abraço!

  19. Tulio disse:

    Pessoal, a razão do garfo “invertido”, não sei explicar em detalhes da física… o fato é que todas as bikes p/ este tipo de evento, chamadas “stayer bikes” (tem até campeonato na Inglaterra…) usam os garfos assim.

    Sei que reproduz-se um efeito similar ao de um carrinho que é empurrado, e que tem rodas dianteiras pivotantes (exatamente como uma bicicleta). Assim, obtém-se maior estabilidade em trajetos retilíneos – para exemplificar: o carrinho seguirá em linha reta enquanto não for alterada a posição da sua roda…

    Abraços

  20. Andrius Teixeira disse:

    Completando o comentário do Tulio

    É o mesmo que acontece com os carrinhos de supermercado, a tendência é sempre manter uma linha reta!

  21. Emilio Salum Filho disse:

    Andrius..aqui em sampa no carrefour, normalmente a tendencia dos carrinhos é ir pra qualquer lugar , menos em linha reta hehehe