O Bom, o Feio e o Mau

Para entender essa história, precisamos pensar na Itália dos primeiros anos do século XX, especificamente em Novi Ligure, um vilarejo entre Piemonte e Liguria.

Nesse lugar os meninos precisam crescer depressa para começar a trabalhar e auxiliar nas despesas do lar. A bicicleta que utilizam para ir trabalhar, a muitos quilômetros de casa, é a única coisa que os mantém unidos à infância.

O BOM

Dentre as crianças, há um que se sobressai. Chama-se Constante Girardengo, nascido em 1893 e que passará a profissional em 1912. Vai deixar a pobreza muito rapidamente, ganhando o campeonato italiano de estrada em 1913. De 1913 a 1936 ganha 106 corridas na estrada e 965 em pista. 9 campeonatos italianos de estrada, 6 Milano-Sanremo e 2 Giro d’Italia, com 31 vitórias em etapas (quando a prova era composta por apenas 10 etapas).

Foi apelidado de “il Campionissimo”. Era o homem mais famoso da época na Itália. De fato, Girardengo foi considerado como o primeiro ciclista com uma imagem capaz de ser usada como um produto. Foram fabricadas bicicletas com seu nome, suas fotos autografadas eram vendidas durante o Giro e cópias da sua camisa eram encontradas nas melhores lojas.

O MAU

Da época que era um menino pobre, teve um grande amigo, chamado Sante Pollastri, nascido na mesma localidade em 1899, que foi um fora-de-série em outro ramo: roubar e matar carabinieris. Uma espécie de Robin Hood mediterrâneo, que roubava do estado para dividir entre os mais pobres, um menino que se rebelou contra a autoridade no período que a democracia estava indo rumo ao fascismo.

Sante era tão bom no que fazia que em 1922 é lançada uma ordem de busca e captura para ele como Inimigo Público Número 1. Fugindo da ordem, ele vai morar em Paris, regressando escondido à Itália só para uma coisa: ver seu amigo entrar nas metas do Giro d’Italia com os braços levantados.

Ele colocava em risco a sua vida, já que todos sabiam da sua paixão pelo ciclismo. Mas sua vantagem é que poucos sabiam da sua amizade com o campeão. Escamoteando-se entre o público na linha de chegada e entre os mecânicos de Girardengo.

Desde o seu auto-exílio, voltou 5 vezes para assistir o Giro (de 1922 a 1926). Mas e 1927, numa corrida que se disputa em Paris, a polícia recebe uma denúncia “Santa vai estar na linha de meta” e ele é preso.

Os carabinieri espalham o boato de que o próprio Girardengo fez a denúncia, tentando assim arruinar a imagem que o anarquismo tem no povo, já que se um herói como o “Campionissimo” ajuda a polícia, não é tão bom como parece. A jogada não sai muito bem, pois o próprio ciclista vai testemunhar a seu favor nos tribunais, o que vai lhe dar um eterno ar de herói do povo.

Girardengo encerra sua carreira em 1936, aos 35 43 anos de idade. Sante Pollastri será indultado em 1959, passando 19 anos em liberdade. Curiosamente, ambos morrem em 1978.

Mas como duas personalidades tão diferentes foram se encontrar? De onde surgiu essa amizade? Ambos tinham em comum a amizade com um massagista cego, chamado Biagio Cavanna (massagista naqueles tempos era o equivalente ao Diretor Técnico das equipes atuais), que foi o responsável pela amizade nascida na infância dos dois.

Como curiosidade extra, o massagista Biagio Cavanna após a aposentadoria de Girardengo, vai ocupar-se da carreira de um magrelo chamado Fausto Coppi, também nascido em Novi Ligure, conhecida como a “Universidade da Bicicleta”. Ele era um bom olheiro, apesar de ser cego e ninguém consegue explicar como era tão bom nisso tendo essa deficiência. Explicações paranormais lhe valeram o apelido de “Il Santone” (homem santo).

O FEIO

Não tem feio nessa história, esse título é só pra dar mais impacto😉

9 respostas para O Bom, o Feio e o Mau

  1. leonn disse:

    A matemática aí está esquisita, Zaka!

    Se nasceu em 1893 e parou de correr em 1936, então ele tinha 43 anos, não?

  2. Maguido disse:

    E o esporte venceu mais uma vez!
    show!!

  3. vander disse:

    Ué..
    Na história,ou o feio é o massagista-cego-olheiro-santo-amigo-em-comum, ou é o Fausto Coppi.

  4. rodrigo fieira disse:

    Que história, que história!!!

  5. Will Barbosa Bike e etc. disse:

    show!
    mais uma do Zaka pra nossas vidas!
    vlw🙂

  6. Juca disse:

    muitissimo bacana, estava esperando esse post fazia tempo ! valew

  7. Antonio Carlos Alves disse:

    Show de história Zaka

    Eu tenho muitas histórias do ciclismo e ciclistas do passado.